
O reencontro de dois irmãos marciais e um país que já não é o mesmo
Um vídeo de Stephen Chow com o ator Wong Yat-fei reacende a nostalgia por 'Shaolin Soccer', enquanto o novo filme do realizador estreia sob aplausos comerciais e uma crítica feroz que expõe as fraturas de uma China em transformação.
Num vídeo que circula nas redes sociais chinesas, o ator Wong Yat-fei, vestido de vermelho, gesticula com entusiasmo diante de Stephen Chow, de boné e máscara. O áudio que acompanha as imagens não é o som ambiente, mas uma frase retirada do clássico Shaolin Soccer, de 2001: “O Irmão Mais Velho voltou, sinto que tudo voltou”. Wong Yat-fei foi o inesquecível Cabeça de Ferro, o irmão mais velho da equipa de futebol que usava o crânio como arma. O reencontro, noticiado pela imprensa de Hong Kong, serviu para desmentir rumores de um desentendimento de 23 anos e para preparar o terreno para Kung Fu Soccer, a nova longa-metragem de Chow que estreou a 11 de julho na China e chega ao Brasil e a Portugal em agosto.
O filme arrecadou mais de 660 milhões de yuan (cerca de 100 milhões de dólares) em apenas quatro dias, tornando-se a maior estreia de verão do cinema chinês dos últimos cinco anos. A produção mobilizou 18 empresas e um orçamento estimado de 380 milhões de yuan, com mais de 1200 planos de efeitos visuais e tecnologia de captura de movimentos. A história troca os monges Shaolin por uma equipa feminina do estilo Emei, que recorre a golpes de kung fu para superar o desprezo alheio e chegar à final de um campeonato. No elenco, além de Zhang Xiaofei e Dilraba, surgem participações especiais da veterana Carina Lau e do ator japonês Takeru Satoh. Contudo, o regresso mais simbólico é o de Lam Chi-cung, o Sexto Irmão de Shaolin Soccer, agora atrás das câmaras como realizador executivo.
A receção do público, porém, revelou um país dividido. Na plataforma Douban, o filme estabilizou nos 6,6 pontos em 10, um retrato da controvérsia. De um lado, há quem celebre a nostalgia e a mudança de foco para personagens femininas, elogiando a coragem de Chow em abandonar a fórmula do herói masculino. Do outro, multiplicam-se as críticas: o humor é datado, as atuações exageradas lembram compilações de vídeos curtos, e os efeitos visuais — com campos de futebol fluorescentes e jogadoras que se transformam em tigres e dragões — são considerados mais distrativos do que mágicos. “Já não basta vender saudade”, resumiu um investigador da Universidade de Comunicação da China, sublinhando que, na era da inteligência artificial, o público exige uma qualidade de produção que o filme nem sempre entrega.
Este choque de expectativas não ocorre no vazio. A China que acolhe Kung Fu Soccer é muito diferente daquela que se reviu em Shaolin Soccer há um quarto de século. Nas clínicas de estética de Pequim, mulheres da classe média alta fazem fila durante horas para injeções de Botox e terapias com células estaminais, convencidas de que um rosto jovem é a melhor apólice de seguro num tempo de crescimento económico incerto. Nos clubes de reformados, como o Sparkly Lady em Guangdong ou o Tai Youqu em Pequim, centenas de mulheres e homens com mais de 60 anos trocam o chá e os netos por aulas de salsa, desfiles de moda e jogos de mistério. “Queremos que a vida seja mais emocionante”, diz uma engenheira civil reformada que hoje desfila de qipao laranja sob holofotes, paga milhares de yuan por sessões fotográficas e se sente mais ocupada do que nunca.
É essa mesma busca por um novo lugar no mundo que o filme tenta encenar no relvado, mas que a realidade já escreve nas passarelas improvisadas dos clubes de bairro. Enquanto os efeitos especiais de Chow tentam fazer voar as jogadoras, são as mulheres de cabelos grisalhos que, com um salto e um sorriso, suspendem por instantes a gravidade de um país que já não acredita em milagres, mas ainda se permite ensaiar outras coreografias.
| Imprensa europeia continental | −1.00 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa chinesa | +1.00 | aligned |
| Imprensa atlântica / anglosfera | +1.00 | aligned |
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