
O filme que parou no meio: a remoção de 'Satluj' e o fantasma de Jaswant Singh Khalra
Longa de Diljit Dosanjh ficou disponível apenas dois dias na Índia antes de ser retirado do streaming, reacendendo o debate sobre censura e memória.
Na noite de domingo, espectadores indianos que tentavam assistir a Satluj no ZEE5 foram surpreendidos por uma interrupção abrupta. O filme, que estreara na plataforma na sexta-feira anterior, simplesmente parou de rodar. Em poucas horas, a produção desapareceu do catálogo indiano, substituída por um comunicado lacônico da plataforma: “À luz dos acontecimentos atuais, Satluj estará indisponível na Índia até novo aviso”. A remoção relâmpago transformou o longa num objeto de culto instantâneo e numa nova peça do longo embate entre o cinema e os órgãos de controlo na Índia.
Dirigido por Honey Trehan, o filme é inspirado na vida de Jaswant Singh Khalra, um gerente bancário que se tornou ativista de direitos humanos ao investigar milhares de cremações clandestinas e desaparecimentos forçados no Punjab dos anos 1990. Khalra foi sequestrado por agentes da polícia estadual em setembro de 1995 e nunca mais foi visto. A sua história, que expôs a brutalidade da luta contra o movimento Khalistan, permaneceu durante décadas como uma ferida aberta na memória da região. A produção, inicialmente batizada de Punjab 95, enfrentou uma batalha de três anos com o Conselho Central de Certificação de Filmes (CBFC), que exigiu 127 cortes, incluindo a remoção do nome do protagonista e de qualquer referência direta à polícia do Punjab. O impasse impediu a estreia nos cinemas e levou ao cancelamento da exibição no Festival de Toronto em 2023.
A chegada ao streaming, já com o título Satluj — nome do rio que atravessa o Punjab —, representou uma vitória parcial: a versão disponibilizada era a mesma que a família de Khalra aprovara, sem cortes. A viúva, Paramjit Kaur Khalra, celebrou o momento como um alívio após “anos de obstáculos políticos”. Contudo, a permanência durou apenas um fim de semana. O ZEE5 não detalhou os motivos da retirada, mas reafirmou o seu “compromisso inabalável” com a visão criativa do filme e a intenção de explorar vias legais para o repor. Na Índia, as plataformas de streaming operam sob um código de autocensura, o que as torna vulneráveis a pressões quando um título é considerado controverso. O episódio revela a fragilidade de um sistema em que a ausência de certificação oficial não garante liberdade, mas sim uma zona cinzenta de remoções silenciosas.
A reação do protagonista Diljit Dosanjh foi imediata e simbólica. Numa publicação no Instagram, partilhou uma cena do filme com a frase “Eu desafio a escuridão” e traçou um paralelo entre o destino da obra e o de Khalra: “O mesmo que aconteceu a Satluj aconteceu a Khalra Saab”. O antigo jogador de críquete e deputado Harbhajan Singh também se manifestou, classificando o filme como imperdível e questionando o abuso de poder estatal. Para observadores no Brasil e em Portugal, o caso ecoa debates locais sobre a tensão entre narrativas históricas e o controlo da memória. Em Brasília, onde a violência policial e a revisão do passado são temas sensíveis, a remoção foi lida como um alerta sobre os limites da liberdade de expressão em democracias sob pressão. Em Lisboa, a atenção voltou-se para o paralelo com os silêncios coloniais e a forma como o cinema pode ser um campo de disputa pela verdade.
Enquanto o filme permanece acessível na versão global do ZEE5, criando uma divisão entre o público doméstico e a diáspora, a imagem que persiste é a do rio Satluj. A sua corrente, que dá nome à obra, atravessa o Punjab carregando sedimentos de histórias não resolvidas. A frase de Dosanjh — “Eu desafio a escuridão” — sobrepõe-se à paisagem fluvial como um gesto de resistência que, mesmo interrompido, continua a correr.
| Imprensa do Golfo árabe | 0.00 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa indiana e sul-asiática | −0.70 | critical |
A ZEE5 Global mantém o filme disponível para os espectadores dos EAU enquanto a versão indiana foi removida. A plataforma exorta a não piratear e assegura que está trabalhando para restaurar o acesso.
Apresenta a remoção como um problema técnico e regional, minimizando as implicações políticas e de censura.
Omite o contexto político e as violações de direitos humanos que levaram à remoção do filme, apresentando-o como um simples problema de disponibilidade.
O filme Satluj denuncia a brutalidade policial e as execuções extrajudiciais durante a insurgência em Punjab; sua remoção é um ataque à liberdade de expressão e censura da verdade histórica.
Enquadra a remoção como parte de uma repressão mais ampla da verdade histórica, usando a figura do ativista Jaswant Singh Khalra para universalizar a luta pelos direitos humanos.
Omite a disponibilidade do filme na ZEE5 Global e os esforços da ZEE5 para restaurá-lo, concentrando-se apenas na censura na Índia.
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