
Hungria suspende noticiários da televisão pública e pede desculpa por 'anos de mentiras'
Governo de Péter Magyar interrompe emissões da M1 e da rádio Kossuth para reformar meios estatais, prometendo independência editorial após 16 anos de controlo de Viktor Orbán.
A televisão pública húngara M1 e a rádio estatal Kossuth suspenderam na terça-feira as emissões de notícias, exibindo um ecrã negro com um pedido de desculpas por terem mentido durante anos. A decisão, anunciada pelo novo governo do primeiro-ministro Péter Magyar, concretiza a promessa eleitoral de reformar os meios de comunicação públicos para os tornar independentes e credíveis. A suspensão afeta o principal canal noticioso do país e a estação de rádio generalista, cujos sítios na Internet também foram retirados do ar. A administração interina nomeada pelo executivo afastou de imediato vários editores e correspondentes associados à anterior governação, incluindo o diretor de informação da M1 e um dos seus rostos políticos mais conhecidos.
Magyar, cujo partido Tisza conquistou uma maioria de dois terços no parlamento em abril, classificou o dia como “histórico” e decretou o fim das emissões de propaganda. “Mentiam de noite, mentiam de dia, mentiam em todas as frequências. Isso acabou”, escreveu na rede social Facebook. Em sentido oposto, o antigo primeiro-ministro Viktor Orbán, afastado do poder após 16 anos, denunciou a medida como “tirania” e apelou aos seus apoiantes para sintonizarem o canal Hír TV, ligado ao seu partido Fidesz. Observadores em Bruxelas assinalam que a rapidez da reestruturação evoca a reforma mediática polaca de 2023, quando o novo governo também interrompeu temporariamente os noticiários públicos para desmantelar o controlo político herdado.
A interrupção não resulta de uma falha técnica, mas de uma rutura institucional deliberada. A equipa de gestão provisória, que integra responsáveis pelas áreas digital, de rádio e de informação, prepara a reintrodução gradual de boletins noticiosos à medida que for constituída uma nova redação. Até lá, a M1 emitirá apenas filmes e as frequências da Kossuth difundem música clássica da rádio Bartók. A medida é viabilizada pela maioria constitucional do governo, que lhe permite alterar a legislação mediática que, sob Orbán, concentrou a propriedade de órgãos privados em mãos de empresários leais ao poder e fez a Hungria cair do 23.º para o 74.º lugar no índice de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras.
Durante a era Orbán, os meios estatais foram transformados em porta-vozes do governo, com a oposição praticamente excluída dos estúdios. O novo executivo iniciou uma auditoria abrangente ao serviço público de radiodifusão e ao seu financiamento. Mais de 90 jornalistas da agência noticiosa estatal MTI manifestaram publicamente apoio à reforma, reivindicando a restauração da autonomia profissional. Na perspetiva de Lisboa e de outras capitais europeias, o caso húngaro é acompanhado como um teste à capacidade de institucionalizar uma reversão democrática após um longo período de governação iliberal. A União Europeia, que criticou repetidamente o ambiente mediático húngaro, ainda não emitiu uma reação oficial.
O governo não anunciou uma data para o regresso dos noticiários regulares. A administração interina deverá apresentar um plano de reestruturação e é expectável a elaboração de uma nova lei de comunicação social. A votação do quadro legal está prevista para os próximos meses, com a maioria qualificada a garantir uma tramitação célere. Entretanto, os editores afastados e a oposição mobilizam-se através de canais alternativos, enquanto o Fidesz consolida os seus próprios órgãos de informação.
| Imprensa europeia continental | +0.30 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa russa e CEI | 0.00 | neutral |
| Imprensa atlântica / anglosfera | +0.20 | neutral |
A Europa continental celebra o fim da propaganda e o nascimento de um serviço público independente.
Universaliza a reforma húngara como um passo natural em direção às normas democráticas dos media, tornando a mudança inevitável e moralmente correta.
A Rússia observa com distanciamento a mudança na gestão dos media húngaros, sem tomar partido.
Usa um tom plano e factual para minimizar o significado histórico, tratando o evento como uma mudança administrativa rotineira em vez de um avanço democrático.
A Rússia omite destacar o significado histórico do pedido de desculpas e a rutura com a era Orbán.
O Atlântico económico aprova a reestruturação como um passo em direção à credibilidade e independência.
Enquadra a medida como uma reforma empresarial lógica, enfatizando promessas eleitorais e detalhes técnicos para tornar a mudança racional e necessária.
O Atlântico omite o contexto político mais amplo, como o processo de impeachment, para se concentrar exclusivamente na reforma dos media.
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