
O grito no zoológico: como o racismo contra IShowSpeed manchou a campanha argentina no Mundial
Dois episódios consecutivos de insultos racistas contra o influenciador norte-americano levaram a FIFA a abrir investigações e reacenderam o debate sobre discriminação no futebol.
No Hard Rock Stadium, em Miami, a 3 de julho, o streamer IShowSpeed envergava a camisola de Cabo Verde e transmitia ao vivo para milhões de seguidores quando uma voz em espanhol cortou o ruído da multidão: “Vete a llorar al zoológico”. O influenciador, confuso, virou-se para a bancada e perguntou o que lhe diziam, enquanto a câmara registava o dedo apontado e o riso de uma adepta argentina. A frase, que ecoou em direto no YouTube, transformou-se no primeiro de dois episódios consecutivos de abuso racial que envolveriam a seleção albiceleste e o criador de 21 anos, cujo nome verdadeiro é Darren Jason Watkins Jr.
Quatro dias depois, em Atlanta, já nos oitavos de final contra o Egito, a cena repetiu-se com uma crueza ainda mais explícita: um torcedor argentino, filmado pelo próprio Speed, imitou um macaco na sua direção, gesto que viralizou em minutos. A FIFA, que já havia anunciado uma investigação sobre o incidente de Miami, viu-se sob pressão redobrada. “A Copa do Mundo é uma celebração da unidade, da diversidade e do respeito”, declarou o organismo, sublinhando que “qualquer pessoa que atue de forma a minar estes valores não é bem-vinda no nosso jogo”. A nota oficial, divulgada a 7 de julho, confirmava a abertura de um inquérito, mas não acalmou a indignação que se alastrava nas redes.
A figura de IShowSpeed é central para compreender a dimensão do caso. Com mais de 57 milhões de subscritores no YouTube e outros 53 milhões no TikTok, o jovem de Cincinnati tornou-se uma das personalidades mais influentes da internet, sobretudo entre o público juvenil. A sua presença nos estádios do Mundial 2026, muitas vezes com a camisola do adversário da Argentina — primeiro Cabo Verde, depois o Egito —, fez dele um alvo fácil para provocações. Mas o que se viu ultrapassou a rivalidade desportiva: a expressão “zoológico” e os gestos simiescos inscrevem-se num repertório racista historicamente dirigido a pessoas negras, e a repetição dos atos em dois jogos consecutivos sugere um padrão que envergonha o futebol sul-americano.
A reação no mundo lusófono foi imediata. No Brasil, o influenciador Luva de Pedreiro, que assistira com Speed à eliminação da seleção brasileira dias antes, publicou um vídeo em que exigia punições severas: “Tem que punir esses vagabundos, esse safado aí. Senão, quem vai dar conta é nós, na base do cacete!”. A sua fala, partilhada por milhões, ecoou um sentimento de cansaço face à impunidade. Em Portugal e em Cabo Verde — nação lusófona cuja camisola Speed vestia no primeiro incidente —, a imprensa destacou o contraste entre a festa do futebol e a persistência do racismo nas bancadas. O episódio somou-se a outro caso de grande repercussão: o avançado francês Kylian Mbappé condenara, dias antes, os comentários racistas de uma senadora paraguaia, levando a Federação Francesa a anunciar ações legais.
Enquanto a Argentina celebrava a épica reviravolta sobre o Egito — de 0-2 para 3-2 nos minutos finais —, a imagem que perdurou para muitos não foi a explosão de alegria de Messi, mas o gesto do adepto anónimo que, diante das câmaras, se sentiu à vontade para imitar um macaco. A transmissão ao vivo de IShowSpeed transformou um insulto de estádio num documento visto por dezenas de milhões, expondo a ferida aberta do racismo no desporto global.
| Imprensa latino-americana | −0.70 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa europeia continental | 0.00 | neutral |
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.30 | critical |
A América Latina condena o racismo e exige ações concretas da FIFA.
Destaca a vítima e mobiliza a solidariedade regional, transformando um incidente isolado em um caso emblemático de discriminação.
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A Europa continental registra o ocorrido sem tomar partido.
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Omite o incidente anterior em Miami e a reação de outros influenciadores, restringindo a história à investigação da FIFA.
O mundo atlântico condena o racismo e se remete à FIFA para resolução.
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Omite o incidente anterior em Miami e a solidariedade de outros influenciadores, reduzindo a narrativa à reação oficial da FIFA.
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