
Netanyahu pede autonomia armamentista após entendimento entre Washington e Teerão
Primeiro-ministro israelita defende produção independente de armas e afirma que o conflito com o Irão “não acabou”, num momento de tensão com os EUA devido ao memorando assinado com Teerão.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, apelou esta semana à construção de uma “rede de armamento independente” que reduza a dependência de Israel dos Estados Unidos. A declaração, proferida a 18 de junho perante oficiais da reserva em Gush Etzion, na Cisjordânia ocupada, e divulgada esta terça-feira pelo seu gabinete, surge um dia depois de Washington e Teerão terem assinado na Suíça um memorando de entendimento com o objetivo de pôr fim às hostilidades em todas as frentes, incluindo o Líbano. Netanyahu afirmou que Israel “golpeou duramente” o Irão e os seus aliados, mas sublinhou que “isto ainda não acabou” e que a posição do país dentro de trinta anos “depende da nossa força”.
Segundo fontes israelitas citadas pela imprensa norte-americana, o entendimento EUA-Irão gerou alarme em Jerusalém por poder consagrar a influência de Teerão sobre o Hezbollah e limitar a liberdade de ação militar israelita no Líbano. O novo mecanismo de monitorização, que inclui o Irão mas não Israel como participante direto, centra-se na prevenção de confrontos entre as forças israelitas e o Hezbollah, ao passo que o anterior, negociado em 2024 com a administração Biden, previa o desmantelamento da infraestrutura militar do grupo xiita. Do lado norte-americano, o vice-presidente J.D. Vance recordou que dois terços das armas defensivas que protegeram Israel nos últimos meses foram fornecidas e financiadas pelos EUA, enquanto o presidente Donald Trump criticou publicamente Netanyahu e ameaçou atacar o Irão caso Teerão não trave o Hezbollah.
O apelo à autonomia armamentista insere-se numa trajetória já enunciada por Netanyahu, que em janeiro disse ao The Economist esperar pôr fim à dependência da ajuda militar norte-americana no prazo de uma década e, em maio, à CBS, afirmou querer reduzir esse apoio a “zero”. Desde 1948, Israel recebeu mais de 300 mil milhões de dólares em assistência económica e militar dos EUA, valor ajustado pela inflação, e ao abrigo do acordo vigente até 2028 beneficia de cerca de 3,8 mil milhões de dólares anuais para aquisição de armamento. A administração Trump e o governo israelita iniciaram conversações sobre um novo quadro decenal de cooperação em segurança que, de acordo com responsáveis dos dois países, deverá evoluir gradualmente de um modelo baseado em ajuda financeira para uma parceria estratégica recíproca.
Na perspetiva de analistas em Lisboa e Brasília, o episódio ilustra a recomposição das alianças no Médio Oriente num momento em que a diplomacia entre Washington e Teerão avança, apesar da oposição cerrada de Israel. O memorando, mediado pelo Qatar e pelo Paquistão, prevê a criação de uma “célula de desconflito” para assegurar o cessar-fogo no Líbano, e o presidente libanês, Joseph Aoun, terá manifestado abertura ao novo mecanismo, desde que os EUA mantenham o seu envolvimento. As próximas semanas serão marcadas pela continuidade das negociações técnicas na Suíça e pela pressão doméstica em Israel, onde a questão do Hezbollah pesa na campanha para as eleições legislativas de outubro.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Netanyahu salienta que Israel precisa de construir o seu próprio sistema de armas para sustentar o combate contra o Irão e os seus aliados, embora aprecie o apoio americano. O apelo surge num contexto de desgaste das relações devido à diplomacia EUA-Irão, mas o foco está na autossuficiência estratégica de longo prazo como imperativo de segurança.
O primeiro-ministro do regime sionista admite a dependência militar de Washington e apela à independência, depois de reivindicar ataques contra o Irão e os seus aliados. A declaração é retratada como um sinal de fraqueza e desespero, com um tom irónico de que o regime procura agora autonomia face ao seu principal patrono.
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