
IA gera paradoxo da produtividade e acentua exclusão no mercado de trabalho
Firmas nativas em IA contratam menos iniciantes e concentram vagas em especialistas seniores, enquanto empresas recuam de substituir humanos por sistemas automatizados.
O entusiasmo inicial com a substituição de trabalhadores por inteligência artificial começa a confrontar a realidade de um mercado de trabalho mais desigual e menos resiliente. Um estudo de investigadores da Harvard Business School e do INSEAD, baseado em startups apoiadas pela Y Combinator, revelou que as empresas nativas em IA são 25 % menores e empregam menos 15% de trabalhadores em início de carreira e gestores intermédios. Em contrapartida, a proporção de colaboradores seniores cresce 20%, com os recrutamentos a privilegiarem licenciados de instituições de elite, maioritariamente homens, concentrados em Silicon Valley.
A explicação reside em parte na natureza destas firmas, que utilizam a IA tanto para automatizar processos internos como para incorporar a tecnologia nos seus produtos, eliminando funções de suporte e supervisão. Ao mesmo tempo, análises do mercado de trabalho nos Estados Unidos mostram que a contratação de recém-licenciados caiu 20% face aos níveis pré‑pandemia, com engenheiros e cientistas informáticos a enfrentarem dificuldades crescentes para transitar entre setores, ao contrário de licenciados em ciências sociais e humanidades, cujas competências se revelam mais versáteis.
O recuo de grandes empregadores ilustra os limites da automatização. A Ford está a recontratar centenas de engenheiros para resolver problemas de qualidade que os sistemas algorítmicos não detetaram, enquanto o Commonwealth Bank da Austrália anulou o plano de substituir 40 funcionários por assistentes de voz após uma acumulação de chamadas. Na China, a fabricante de robôs humanoides Agibot conseguiu operar oitos robôs durante seis dias consecutivos numa linha de montagem, com uma taxa de sucesso de 99,99 %, mas a adoção em massa enfrenta ainda obstáculos regulatórios e de custo.
Do ponto de vista regulatório, a União Europeia obriga os fornecedores de modelos de IA a respeitar os direitos de autor e a publicar resumos dos conteúdos usados no treino, enquanto nos Estados Unidos se arrastam litígios sobre a utilização não licenciada de obras protegidas. Observadores em Lisboa e Brasília notam que a ausência de quadros legais claros na maioria dos países lusófonos pode atrasar tanto o investimento como a proteção de criadores. O próximo marco a acompanhar será a entrada em vigor plena do Regulamento de IA da UE e os primeiros acórdãos judiciais que definirem as indemnizações por violação de copyright na era generativa.
| Imprensa atlântica / anglosfera | +0.20 | neutral |
|---|---|---|
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