
Hamas elege Khalil al-Hayya, negociador e linha-dura, como novo líder do politburo
A vitória sobre Khaled Meshaal, apoiado por Catar e Turquia, reforça a aliança com o Irão e sinaliza a rejeição do desarmamento exigido pelo plano de paz dos EUA.
O movimento islamita palestiniano Hamas anunciou esta segunda-feira a eleição de Khalil al-Hayya como novo chefe do seu gabinete político, sucedendo a Yahya Sinwar, morto por forças israelitas em outubro de 2024. Al-Hayya, que liderava a delegação do grupo nas negociações indiretas de cessar-fogo com Israel, derrotou o antigo líder Khaled Meshaal numa segunda volta de votação do Conselho da Shura, após um primeiro escrutínio inconclusivo. A escolha põe fim ao interregno de quase dois anos em que um conselho diretivo de cinco membros, chefiado por Mohammed Darwish, assegurou a liderança interina.
Na leitura de analistas palestinianos e de fontes próximas do processo, a eleição representa uma afirmação da ala mais dura do Hamas, alinhada com Teerão e com o chamado “Eixo da Resistência”. Meshaal, exilado e próximo de Ancara e Doha, era visto como defensor de uma linha mais pragmática. A vitória de al-Hayya, sobrevivente de um ataque aéreo israelita em Doha em setembro de 2025 que matou um dos seus filhos, foi interpretada por observadores em Beirute e Ramallah como um sinal de que a organização rejeita qualquer desarmamento sem um horizonte político para a criação de um Estado palestiniano. O braço armado, as Brigadas Al-Qassam, declarou “total apoio” ao novo líder.
A decisão complica as negociações em curso sobre o futuro de Gaza. O plano de paz promovido pelo Conselho de Paz liderado pelos EUA exige o desarmamento do Hamas e a retirada militar israelita, prevendo uma administração tecnocrática palestiniana. Contudo, fontes diplomáticas em Washington e no Médio Oriente indicam que o grupo islamita continua a condicionar a entrega de armas a garantias de autodeterminação, que não estão contempladas no atual quadro negocial. A liderança de al-Hayya, cujo mandato transitório se estende até 2027, deverá reunir o bureau político em Istambul nos próximos dias para iniciar a reestruturação dos órgãos dirigentes.
Khalil al-Hayya, nascido em Gaza em 1960, integrou o Hamas desde a sua fundação em 1987, após uma militância inicial na Irmandade Muçulmana. Doutorado em direito islâmico no Sudão, foi preso por Israel no final dos anos 1990 e perdeu dezenas de familiares em sucessivas operações militares israelitas, incluindo a mulher e vários filhos. A sua trajetória de negociador-chefe, combinada com a sobrevivência a múltiplos atentados, conferiu-lhe uma aura de “ícone da luta palestiniana”, segundo analistas em Gaza. A eleição decorreu sob estrito secretismo, com votos recolhidos entre membros do Hamas em Gaza, na Cisjordânia, nas prisões israelitas e na diáspora, refletindo a fragmentação e a pressão securitária que marcam o movimento.
O anúncio surge num momento de profunda fragilidade para o Hamas, cuja capacidade militar e política foi severamente degradada por dois anos de guerra. Apesar do cessar-fogo mediado pelos EUA em outubro de 2025, Israel mantém o controlo de mais de 60% da Faixa de Gaza e prossegue ataques seletivos. As condições de vida dos cerca de dois milhões de habitantes permanecem extremamente precárias. Na perspetiva de Telavive, a escolha de al-Hayya confirma a continuidade da ameaça, enquanto capitais europeias como Lisboa e Brasília, que classificam o Hamas como organização terrorista, acompanham com apreensão o reforço da linha dura. O dossiê do desarmamento e da reconstrução de Gaza deverá agora enfrentar “dificuldades e obstáculos significativos”, como resumiu a analista palestiniana Reham Owda.
| Imprensa israelense | −0.80 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa iraniana e afins | +0.80 | aligned |
| Imprensa atlântica / anglosfera | 0.00 | neutral |
Israel condena a escolha do Hamas e enfatiza a ameaça terrorista representada pelo novo líder.
Usa o termo 'terrorista' para deslegitimar o grupo e justificar as operações israelenses, apresentando a nomeação como uma continuação da violência.
Omite o processo eleitoral interno do Hamas e o doutorado de al-Hayya, que poderiam conferir legitimidade política.
O Irã celebra a eleição de um líder da resistência e reafirma o apoio à luta palestina.
Enfatiza o martírio dos líderes anteriores e a continuidade da resistência para legitimar a nomeação e mobilizar apoio.
Omite o papel de al-Hayya como negociador principal nas conversas de cessar-fogo com Israel, o que poderia enfraquecer a retórica de resistência.
O Ocidente observa com cautela a nomeação de um negociador ligado ao Irã, sem tomar partido.
Concentra-se nos fatos e nos laços com o Irã, apresentando a nomeação como um evento significativo, mas sem implicações imediatas, mantendo um tom distante.
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