
Hamas elege Khalil al-Hayya como líder político em votação que expõe divisões internas
A escolha do negociador-chefe, alinhado a Teerão, sucede a Yahya Sinwar e ocorre num momento de pressão sobre o cessar-fogo em Gaza.
O movimento palestiniano Hamas anunciou esta segunda-feira a eleição de Khalil al-Hayya como novo chefe do seu gabinete político, sucedendo a Yahya Sinwar, morto por Israel em outubro de 2024. A votação interna, que envolveu 69 membros do conselho da organização, só foi decidida numa segunda volta, depois de nem al-Hayya nem o outro candidato, Khaled Meshaal, terem alcançado os 36 votos necessários na primeira ronda. O resultado, comunicado num escrutínio realizado sob cerco e com representantes dentro e fora dos territórios palestinianos, revela, segundo fontes próximas ao processo, uma profunda clivagem sobre a orientação estratégica futura do Hamas.
Na perspetiva de Teerão e de aliados regionais, a vitória de al-Hayya representa a continuidade da linha de Sinwar. O novo líder, natural de Gaza e membro fundador do Hamas, é descrito por analistas em Beirute como um arquiteto da reaproximação com o Irão e com o regime sírio, tendo liderado a delegação que visitou Damasco em 2022 e mantido contactos regulares com a Guarda Revolucionária. O Hezbollah libanês felicitou-o, classificando a eleição como “uma mensagem clara ao inimigo sionista”. Já o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, enviou uma mensagem de parabéns em que reafirma o “apoio firme” da República Islâmica à “luta legítima do povo palestiniano”. Em contraste, Khaled Meshaal, antigo líder no exílio, defendia, de acordo com círculos diplomáticos em Doha, uma reavaliação estratégica da atuação do movimento após a devastadora ofensiva israelita em Gaza, o que o colocava em rota de colisão com a ala mais próxima do chamado “eixo da resistência”.
A escolha de al-Hayya tem implicações diretas para as negociações de cessar-fogo e para a reconstrução do enclave. Enquanto negociador-chefe do Hamas nas conversações indiretas com Israel, mediadas pelo Egito, Catar e Turquia, al-Hayya foi a face política da organização nas tréguas alcançadas e na discussão da segunda fase do acordo. Observadores no Cairo notam que a sua eleição pode consolidar a posição negocial do Hamas, mas também dificultar qualquer distensão que exija um distanciamento de Teerão. O próprio al-Hayya, em telefonema com o chefe dos serviços de informação egípcios, Hassan Rashad, comprometeu-se a “continuar a trabalhar e a coordenar” com os mediadores para “pôr fim ao sofrimento dos palestinianos” e garantir a retirada israelita.
A trajetória de al-Hayya está marcada por perdas familiares sucessivas em ataques israelitas — incluindo três filhos e vários parentes — e por uma longa militância que remonta à primeira Intifada. Doutorado em estudos islâmicos, foi um dos fundadores do Hamas e cumpriu três anos de prisão em Israel na década de 1990. Após o ataque de 7 de outubro de 2023, assumiu a defesa pública da operação no exterior, tornando-se um dos rostos mais reconhecidos da diplomacia do movimento. Em Brasília e Lisboa, onde o conflito é acompanhado com atenção, a eleição é vista como um sinal de que a liderança do Hamas permanece ancorada na aliança com o Irão, num momento em que a comunidade internacional, incluindo os países lusófonos, insiste na implementação integral do cessar-fogo e na retoma da ajuda humanitária. O novo líder deverá agora supervisionar os dossiês políticos e as relações externas, enquanto se aguarda a retoma das conversações sobre a segunda fase do acordo de tréguas.
| Imprensa árabe Levante-Magrebe | +0.30 | aligned |
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| Imprensa iraniana e afins | +0.50 | aligned |
A resistência islâmica escolheu um líder experiente em negociações, um mujahid que dedicou sua vida à causa.
A eleição é apresentada como um processo legítimo e natural, enfatizando a longa militância e o papel diplomático de al-Hayya para consolidar sua autoridade.
Críticas internas ao Hamas ou dificuldades no processo eleitoral não são mencionadas, nem o fato de al-Hayya ser considerado uma figura de compromisso.
A resistência palestina continua sob um novo comandante, depois que o mártir Sinwar infligiu uma derrota ao regime sionista.
O martírio de Sinwar e o sucesso da operação Inundação de Al-Aqsa são enfatizados para criar uma narrativa de continuidade heroica e legitimar a nova liderança como continuação da luta.
O papel de al-Hayya como negociador de cessar-fogo e as conversas com Israel não são mencionados, para enfatizar a continuidade da resistência armada.
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