
Governo alemão exige atestado médico desde o primeiro dia de baixa e provoca divisão na coligação
A nova regra, que elimina a baixa por telefone e antecipa a obrigação de apresentar certificado, é justificada pelo chanceler Merz com o elevado absentismo, mas enfrenta resistência de médicos e de setores do SPD.
A coligação alemã liderada pelo chanceler Friedrich Merz (CDU) anunciou que os trabalhadores passarão a ter de apresentar um atestado médico logo no primeiro dia de doença, eliminando simultaneamente a possibilidade de obter a baixa por telefone, medida introduzida durante a pandemia de covid-19. A decisão reverte uma prática em vigor desde 1994, que só exigia o comprovativo a partir do quarto dia de ausência, salvo exigência antecipada do empregador. A Associação Nacional de Médicos dos Seguros de Saúde (KBV) classificou a medida como “próxima da loucura”, alertando que forçará milhares de pessoas com infeções a deslocarem-se a consultórios sobrecarregados, enquanto a Associação de Clínicos Gerais teme que as salas de espera se encham de doentes que necessitariam apenas de um ou dois dias de repouso.
Segundo o governo alemão, o país regista uma média de 18 dias de baixa por trabalhador ao ano, um dos valores mais elevados da União Europeia, o que representa um “prejuízo competitivo” e um custo anual para as empresas estimado entre 82 e 85 mil milhões de euros em pagamento de salários durante a doença. O chanceler Merz afirmou que a Alemanha “regressa às regras anteriores à pandemia” e que os níveis de absentismo se tornaram “exorbitantes”. Na perspetiva do executivo, a medida insere-se num pacote mais amplo de reformas fiscais, laborais e de pensões destinado a reativar a economia alemã. O porta-voz governamental, Stefan Kornelius, esclareceu que a obrigação de apresentar o atestado no primeiro dia não implica necessariamente a entrega física imediata, mantendo-se a possibilidade de consultas por vídeo, e que a concretização exata da norma ainda está por definir.
A ala social-democrata da coligação manifestou reservas. O vice-chanceler Lars Klingbeil (SPD) defendeu “soluções viáveis” e a ministra do Trabalho, Bärbel Bas, também do SPD, admitiu que a proposta não partiu de si e que irá “analisar se a medida tem algum efeito ou se é mais provável que cause dificuldades”. O secretário-geral do SPD, Tim Klüssendorf, justificou o acordo com a necessidade de evitar exigências mais duras da CDU, como a introdução de dias de espera não remunerados. A ala trabalhista da própria CDU (CDA) sugeriu que a coligação reconsidere a decisão, considerando que o “valor de conflito político” não parece compensar as alegadas melhorias.
Observadores em Itália, onde a média de ausência por doença é de apenas 0,6 semanas anuais segundo dados da OCDE, notam que a mudança representa uma transição simbólica de um sistema baseado na confiança para um modelo assente na desconfiança, um choque cultural num país habituado a regras mais flexíveis. A imprensa alemã sublinha que a Alemanha não é líder europeu em dias de baixa, mas situa-se no terço superior, e que a combinação de salário integral durante seis semanas e a posterior prestação de doença pelas caixas de seguro constitui uma proteção relativamente generosa. O dossier permanece em aberto: o porta-voz do Ministério da Saúde indicou que a modalidade de aplicação ainda será trabalhada, enquanto o SPD insiste numa implementação “sensata” que não sobrecarregue os consultórios nem force os doentes a sair de casa.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Germany abolishes phone sick notes, sparking debate on whether to require a doctor's certificate from the first day of illness. Opinions are split between those seeing it as a bureaucratic relief and those fearing misuse.
The German decision to abolish phone sick notes is seen as another sign of Western institutional decline, with criticism of public health management. The move is interpreted as a concession to social pressure that could undermine medical oversight.
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