
Burnham afasta eleições antecipadas e mantém 'triple lock' das pensões
Candidato único à sucessão de Starmer confirma compromissos do manifesto de 2024 e sinaliza abertura a reforma eleitoral e a acordo comercial mais ambicioso com a UE.
O deputado Andy Burnham, único candidato à liderança do Partido Trabalhista e provável próximo primeiro-ministro do Reino Unido a partir de 20 de julho, descartou a convocação de eleições gerais antecipadas e confirmou a manutenção do mecanismo de proteção das pensões conhecido como “triple lock”. As declarações foram feitas numa sessão de perguntas e respostas na plataforma Reddit, na sexta-feira, e na sua primeira entrevista a um órgão de comunicação social desde o anúncio da renúncia de Keir Starmer, a 22 de junho. Burnham afirmou que governará com base no manifesto eleitoral de 2024, que exclui aumentos do IVA, do imposto sobre o rendimento e das contribuições para a segurança social, mas admitiu existir “alguma margem” para ajustes fiscais, nomeadamente através da subida de taxas sobre armazéns de grandes empresas digitais para financiar apoios ao comércio de rua.
Na perspetiva de círculos conservadores, a líder Kemi Badenoch acusou Burnham de evitar o escrutínio, classificando a sessão no Reddit como “fácil” e questionando a forma como será colmatado o défice de financiamento do plano de investimento em defesa, estimado em 4,7 mil milhões de libras. Burnham respondeu que assumirá “total responsabilidade” pelo financiamento do plano, mas rejeitou cortes lineares nas prestações sociais, defendendo antes uma reforma do sistema educativo e de formação profissional para reduzir a despesa com subsídios. A ala esquerda do Partido Trabalhista, por seu turno, continua a pressionar por um relaxamento das regras de endividamento público, proposta que o futuro primeiro-ministro não subscreveu publicamente.
A confirmação do “triple lock” surge num momento de debate interno sobre a sustentabilidade da medida, que indexa o aumento das pensões ao maior valor entre a inflação, o crescimento dos salários ou 2,5%. De acordo com analistas em Londres, a decisão de Burnham alinha-se com o compromisso do manifesto de 2024 e procura evitar fraturas com o eleitorado sénior, embora conselheiros económicos próximos do futuro governo tenham manifestado reservas quanto ao seu custo, que em 2023/24 ascendeu a 124,3 mil milhões de libras. Em matéria de reforma institucional, Burnham declarou-se “forte apoiante” da representação proporcional e comprometeu-se a tentar convencer o partido a incluí-la no próximo manifesto, um movimento que, na ótica de observadores em Bruxelas, poderá facilitar uma cultura política de maior colaboração e, indiretamente, uma reaproximação mais estruturada à União Europeia.
O contexto fiscal que Burnham herdará é marcado por pressões contraditórias. Enquanto o governo central enfrenta um buraco orçamental de 7 mil milhões de libras nos próximos três anos, segundo a Associação de Governos Locais, autarquias como a de Westminster, em Londres, preveem duplicar o imposto municipal para compensar cortes nas transferências do Estado, na sequência da revisão da fórmula de financiamento que privilegia regiões mais carenciadas. A situação ilustra as tensões entre a promessa de disciplina orçamental e as exigências de investimento público, num momento em que o antigo primeiro-ministro John Major, em entrevista ao The Independent, quantificou em 100 mil milhões de libras anuais o custo do Brexit para a economia britânica e defendeu o regresso ao mercado único no prazo de cinco anos.
O processo de transição de poder deverá concluir-se a 20 de julho, com a tomada de posse de Burnham. O novo governo terá de apresentar um orçamento no outono, onde se espera a concretização das medidas de financiamento do plano de defesa e a clarificação da margem de manobra fiscal. A pressão por um acordo comercial mais ambicioso com a UE e a promessa de uma oferta política dirigida aos jovens, incluindo benefícios fiscais para a poupança destinada à compra de habitação, são outros dossiês que marcarão os primeiros meses do executivo.
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