
Europa aperta o cerco à poluição com novas regras para veículos e mercado de carbono
Enquanto o sistema de comércio de emissões da UE já rendeu 260 mil milhões de euros, estudo global atribui aos 10% maiores consumidores danos ambientais de até 5,7 biliões de dólares.
O Parlamento Europeu aprovou esta semana, por larga maioria, a exigência de incorporação de materiais reciclados em todos os novos veículos fabricados na União, reforçando as metas de circularidade também na fase de desmantelamento. A medida surge num momento em que o mercado de carbono europeu (ETS) celebra duas décadas de funcionamento com um balanço duplamente positivo: reduziu para metade as emissões dos setores mais poluentes do continente e arrecadou 260 mil milhões de euros, sem travar o crescimento económico. Bruxelas prepara agora a expansão do sistema a setores até aqui isentos, convencida de que menos carbono e mais PIB são compatíveis.
Contudo, a dimensão global do desafio climático continua a expor desigualdades profundas. Um estudo publicado na Communications Sustainability estima que os 10% maiores consumidores do mundo — analisados em seis países que incluem o Brasil, a China e os Estados Unidos — causam entre 1,7 e 5,7 biliões de dólares em danos ambientais por ano, um valor que equivale a várias vezes o PIB de muitas nações. Ao mesmo tempo, o mais recente relatório do IPCC e análises de agências internacionais denunciam uma injustiça contabilística: a agricultura regenerativa, com enorme potencial para sequestrar carbono nos solos, nos tecidos vegetais e no biochar, não é devidamente valorizada nos mercados de créditos de carbono. Esta falha metodológica penaliza agricultores indianos e de outras regiões que já prestam serviços ambientais sem a devida remuneração.
Nos mercados financeiros, a sustentabilidade também dita movimentos. Em Estocolmo, a empresa de tecnologia médica Getinge viu a sua recomendação subir para compra, com analistas a apontarem a baixa valorização de todo o setor e a redução dos custos de qualidade como catalisadores para a próxima apresentação de resultados. Em sentido oposto, a Karnov afundou após uma nota de venda, enquanto a Skistar disparou impulsionada por resultados robustos. Estes episódios ilustram um ambiente em que os critérios ambientais, sociais e de governação (ESG) ganham peso crescente nas decisões de alocação de capital, influenciando avaliações mesmo em setores aparentemente distantes da esfera verde.
Na perspetiva de Brasília, o debate sobre a precificação do carbono ganha urgência. O Brasil, grande consumidor e potência agrícola, pode beneficiar de um mercado que reconheça o sequestro nos solos tropicais, mas enfrenta o risco de repetir as distorções contabilísticas denunciadas na Índia, caso as metodologias internacionais não sejam corrigidas. Observadores em Lisboa notam que o sucesso do ETS e as novas regras de circularidade automóvel pressionam a indústria portuguesa de componentes a adaptar-se rapidamente, sob pena de perder competitividade. Para os países africanos de língua portuguesa, como Moçambique e Angola, a criação de sistemas justos de contabilidade de carbono pode destravar investimentos em agricultura sustentável e projetos de conservação florestal, desde que a comunidade internacional corrija as falhas apontadas pelo IPCC e transforme o potencial de sequestro num ativo financeiro reconhecido.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os consumidores mais ricos do planeta infligem trilhões de dólares em danos ambientais a cada ano com seu consumo desmedido. O estudo expõe a profunda injustiça de um sistema global onde o estilo de vida de poucos impõe custos catastróficos à maioria.
O sistema global de contabilidade de carbono é fundamentalmente falho, apagando o papel de sequestro de carbono dos agricultores indianos enquanto os penaliza. O mercado de carbono e as regras de reciclagem da Europa são concebidos para proteger os consumidores ricos e transferir o fardo ambiental para o Sul global.
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