
EUA aceleram desenvolvimento de mísseis de longo alcance e defesa antimíssil no Pacífico
Washington planeia novo míssil ar-superfície de 1.850 km, testa armamento anti-navio e instala escudo antimíssil em Guam, num esforço para conter a influência militar chinesa na região.
A Força Aérea dos Estados Unidos anunciou planos para desenvolver um novo míssil de longo alcance lançado do ar, designado AFLRW, com capacidade para atingir alvos aéreos, terrestres e navais a mais de 1.800 quilómetros de distância. Uma reunião com potenciais fabricantes está marcada para agosto na Base Aérea de Eglin, na Florida, segundo um aviso oficial citado pela imprensa especializada. O programa procura, na avaliação de analistas em Washington, colmatar uma lacuna estratégica face à China no teatro do Indo-Pacífico, onde mísseis como o AIM-120D têm um alcance de apenas 200 quilómetros. O novo armamento convencional, que poderá ser produzido em versões ar-ar e ar-superfície, insere-se numa vaga mais ampla de modernização que inclui ainda a primeira nova ogiva nuclear norte-americana em 40 anos, a W93/Mk7, atualmente em desenvolvimento pela Marinha e pela Administração Nacional de Segurança Nuclear.
Em paralelo, os Estados Unidos testaram com sucesso o míssil anti-navio de longo alcance LRASM a partir de um bombardeiro furtivo B-2 Spirit durante o exercício Valiant Shield 26, que decorre até 1 de julho nas imediações das Ilhas Marianas, Guam e Japão. O Comando de Ataque Global da Força Aérea norte-americana informou que o engenho, com um alcance de 800 quilómetros, afundou um navio-alvo e demonstrou a capacidade de atingir objetivos estratégicos a grande distância. O LRASM é descrito por fontes militares como um componente-chave das operações de ataque marítimo de longo alcance, conferindo uma “vantagem decisiva” sobre adversários.
No plano defensivo, o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA posicionou pela primeira vez em Guam o sistema MRIC (Medium-Range Intercept Capability), derivado do Iron Dome israelita e equipado com intercetores SkyHunter e o radar G/ATOR. A ilha, que alberga bases aéreas e navais essenciais, está dentro do raio de ação de mísseis balísticos chineses de médio alcance, o que torna o destacamento, segundo observadores de segurança regional, uma resposta direta a essa vulnerabilidade. O programa prevê equipar os três batalhões de defesa aérea de baixa altitude dos Fuzileiros até 2028, com a produção dos mísseis já em curso no Arkansas.
Na perspetiva de Pequim, o conjunto de iniciativas — do novo míssil de 1.850 quilómetros ao escudo antimíssil em Guam — é interpretado como um reforço da pressão militar norte-americana no Pacífico ocidental. O Valiant Shield 26 serviu de banco de ensaios para estas capacidades, enquanto o encontro de agosto com a indústria representa o próximo passo concreto no programa AFLRW. A modernização da ogiva nuclear e a extensão da vida útil do míssil Trident II D5 completam um quadro de aceleração tecnológica que, do ponto de vista de capitais europeias como Lisboa — membro da NATO —, sublinha a centralidade do Indo-Pacífico nas prioridades estratégicas de Washington.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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