
Do celular na mochila ao caderno aberto: retratos da educação em 2025
Brasil, Argentina, Alemanha e Bangladesh revelam, em estudos recentes, os efeitos de políticas que vão da proibição de ecrãs à inclusão de crianças com deficiência.
Na mochila, o celular vibra, mas a mão não o alcança. Em 62% das escolas brasileiras, é ali que o aparelho permanece durante as aulas, segundo o primeiro balanço da lei que restringiu o uso de dispositivos móveis para fins não pedagógicos. Divulgado pelo Ministério da Educação e pelo Inep, o levantamento ouviu 8.189 gestores e constatou que 92% das instituições já adotaram a norma. Para 86% dos diretores, a medida reduziu a ansiedade dos estudantes; 55% notaram menos agressões físicas e 88% apontaram queda no cyberbullying. A secretária de Educação Básica, Kátia Schweickardt, definiu a lei como “viva”, por ter sido internalizada rapidamente — um sinal, segundo analistas em Brasília, de que a sociedade já percebia o uso nocivo dos ecrãs.
A milhares de quilômetros dali, em salas de aula argentinas, o foco estava noutro tipo de resultado. As provas Aprender 2025 mostraram que mais de 70% dos alunos atingiram o nível esperado em leitura, e cinco em cada dez alcançaram os patamares satisfatório e avançado em matemática. O Ministério do Capital Humano atribuiu os avanços às políticas educacionais baseadas em evidência e ao trabalho conjunto. Um dado chamou a atenção de observadores em Buenos Aires: as Escolas Alfa, que integram o Plano Nacional de Alfabetização e atendem regiões vulneráveis, reduziram a diferença de desempenho em relação às demais instituições. A brecha, que chegava a 17,6 pontos, foi interpretada pelo governo como um sinal de equidade.
Na Europa, o debate sobre equidade ganhou contornos diferentes. Um estudo do Instituto Alemão de Direitos Humanos, divulgado em Berlim, revelou que 68,7% dos pais de crianças com deficiência teriam optado por uma escola regular se houvesse condições adequadas. Para muitas famílias, a escola especial (Förderschule) é uma “solução de emergência”, nas palavras dos investigadores. A pesquisa, que ouviu 7.462 responsáveis em todo o país, mostrou que apenas 40% sentem os filhos plenamente acolhidos nas escolas comuns. A falta de formação docente e a escassez de estruturas de apoio transferem para os pais o peso da organização — do transporte à assistência pedagógica. A Alemanha ratificou a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência em 2009, mas mantém um sistema paralelo que, segundo os autores, “privatiza” parte da inclusão.
Em Bangladesh, a inclusão é testada no terreno. O programa “Shikhbo Shobai” (Vamos Todos Aprender), implementado pela organização Sightsavers e avaliado pelo BRAC Institute of Governance and Development, pela Universidade BRAC e pela Universidade de Cambridge, acompanhou 1.615 crianças com deficiência em 122 escolas. Os resultados, apresentados em Daca, indicam um aumento de 15% na participação escolar e uma redução de 8% nos episódios de bullying. O impacto foi mais pronunciado entre as meninas. O projeto combinou visitas domiciliares, formação de professores, oferta de dispositivos de apoio e sessões de fisioterapia. Contudo, investigadores da Universidade de Daca alertaram para o desafio da sustentabilidade: quando o financiamento internacional terminar, como o Estado manterá o modelo?
As quatro experiências, embora distantes, partilham um traço comum: a tentativa de responder com políticas públicas a diagnósticos que já não se limitam aos gabinetes. Seja pelo silêncio de um telemóvel guardado na mochila, seja pelo caderno de uma menina com deficiência que antes ficava em casa, o ano de 2025 deixa a imagem de escolas que se medem menos por discursos e mais pela concretude dos seus indicadores — e pelas histórias que ainda não cabem nas estatísticas.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Na América Latina, reformas silenciosas estão gerando resultados concretos. Na Argentina, mais de 70% dos alunos atingem o nível esperado em leitura e a matemática avança, graças às políticas recentes. No Brasil, a proibição de celulares nas escolas é adotada por 92% das instituições, e 86% dos gestores relatam alunos menos ansiosos e mais participativos.
Um estudo alemão sobre inclusão revela que, para muitos pais, a escola especial é um 'último recurso', pois as escolas regulares carecem de apoio adequado. O direito à educação inclusiva permanece não cumprido na prática, expondo falhas sistêmicas.
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