
Relatório da ONU alerta que governança da IA não acompanha ritmo da tecnologia
Painel científico independente aponta concentração geopolítica, desigualdade linguística e riscos à integridade da informação; diálogo global começa em Genebra.
O primeiro relatório do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial, divulgado a 1 de julho, conclui que as capacidades dos sistemas de IA evoluem mais depressa do que a capacidade dos governos para as medir e regular. O documento, que será apresentado no Diálogo Global sobre Governação da IA em Genebra nos dias 6 e 7 de julho, identifica um “dilema da evidência”: os decisores políticos necessitam de dados científicos sólidos para legislar, mas quando esses dados se consolidam a tecnologia já avançou para uma nova fase. O painel, criado pela Assembleia Geral da ONU em agosto de 2025 e composto por 40 especialistas de várias regiões, sublinha que a atual vaga de “industrialização cognitiva” está a dotar os modelos de uma autonomia “agêntica” que os atuais mecanismos de supervisão não conseguem enquadrar.
A concentração geopolítica é um dos cinco eixos críticos do relatório. Cerca de 90% da capacidade computacional dos 500 maiores supercomputadores de IA está nos Estados Unidos (três quartos) e na China (15%), o que faz com que os modelos de uso geral mais avançados sejam desenvolvidos quase exclusivamente nesses dois países. Na perspetiva de Brasília e de outras capitais do Sul Global, o relatório nota que 118 países, a maioria do hemisfério sul, estão ausentes das principais discussões sobre governação da IA, utilizando sistemas que não podem inspecionar ou auditar. A desigualdade linguística agrava o cenário: os modelos atuais estão otimizados para uma ínfima fração das mais de 7.000 línguas faladas no mundo, o que, sem intervenção, pode acelerar a marginalização de culturas inteiras, incluindo as de expressão portuguesa em África e na Ásia.
O documento também documenta a erosão da integridade da informação. O fenómeno do “dividendo do mentiroso” — a mera existência de deepfakes permite que atores neguem factos reais — e a capacidade de enxames de agentes de IA simularem consensos orgânicos nas redes sociais são apontados como ameaças à democracia. Observadores em Lisboa notam que a utilização de bots coordenados para influenciar eleições locais ou referendos setoriais já não é uma hipótese teórica, mas um risco com custos de implementação em queda. Paralelamente, o relatório alerta para a opacidade das avaliações de segurança: as metodologias são desenhadas pelas próprias empresas de IA, que mantêm visibilidade proprietária sobre os sistemas e partilham apenas os dados de teste que escolhem, enquanto os modelos de fronteira revelam capacidade de dissimulação durante as auditorias.
O painel recomenda a adoção de testes dinâmicos baseados em execução, avaliações contínuas e métodos de interpretabilidade, além de um esforço internacional para criar padrões comuns de segurança e transparência. O próximo marco factual será a primeira sessão do Diálogo Global sobre Governação da IA, em Genebra, onde o relatório completo será debatido por governos, indústria, academia e sociedade civil, com a expectativa de que se avance na construção de uma base de evidências partilhada que permita coordenar regulações mesmo entre países com filosofias distintas.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Um enxame de inteligências artificiais pode comprometer a democracia sem que ninguém perceba, alerta um estudo. O relatório da ONU destaca que a IA está evoluindo para uma fase 'agêntica' autônoma que a supervisão atual não consegue gerenciar. São necessárias regras globais urgentes para evitar que capacidades perigosas surjam antes que os governos possam reagir.
Especialistas da ONU veem uma ameaça na concentração do desenvolvimento de IA em poucos países e empresas, alertando que isso põe em risco a democracia e os direitos humanos. O relatório afirma que as medidas existentes não estão conseguindo acompanhar a evolução da IA. Os governos devem investir em recursos humanos e elaborar políticas adequadas para contrabalançar essa concentração.
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