
Do ataque com ácido ao golo histórico: Yoane Wissa, herói do Congo no Mundial
Autor do primeiro golo da RD Congo em Copas do Mundo, o avançado superou uma agressão com ácido e um rapto, e alertou para a guerra no leste africano.
Na noite de quarta-feira, em Houston, o avançado Yoane Wissa inscreveu o nome na história do futebol africano ao marcar, de cabeça, o primeiro golo da República Democrática do Congo numa fase final de um Campeonato do Mundo. O cruzamento de Arthur Masuaku encontrou a testa do jogador do Newcastle aos 45 minutos, anulando a vantagem de Portugal, equipa de Cristiano Ronaldo, e selando um empate a uma bola no arranque do Grupo K do Mundial de 2026. O país, que participara apenas como Zaire em 1974 sem nunca ter festejado um golo, quebrou um jejum de 52 anos e três dias, num momento de enorme simbolismo.
A epopeia de Wissa, porém, começa muito antes do relvado norte-americano. Aos 16 anos, quando ainda atuava nas camadas jovens do Châteauroux, em França, o jovem de ascendência congolesa recorreu a um método insólito para se aproximar da seleção: enviou uma mensagem privada à federação através do Facebook, pedindo uma oportunidade. Anos mais tarde, já profissional no Lorient, sobreviveu a uma provação que quase lhe custou a visão e a vida da filha recém-nascida. Uma mulher, sob o pretexto de uma fotografia, atirou-lhe ácido ao rosto e tentou raptar a bebé. Wissa impediu o sequestro e, após tratamento, recuperou a ponto de se tornar figura central do ataque congolês.
Observadores em Lisboa notam que o golo de Wissa complicou as contas de Portugal, um dos favoritos ao título, e expôs fragilidades defensivas que a equipa de Roberto Martínez terá de corrigir. Já a imprensa brasileira sublinhou o alerta do próprio jogador no final da partida: “Olhando para casa, é tudo muito difícil, há uma guerra no leste do Congo. É um povo sofrido que luta por paz.” Na África lusófona, onde Angola já havia marcado em 2006, o feito congolês é recebido como um sinal da crescente competitividade do continente, ainda que a RD Congo não partilhe a língua portuguesa; a resiliência de Wissa ecoa em nações como Moçambique, que sonham com a estreia mundialista.
O ponto conquistado diante de Portugal coloca a RD Congo em posição de sonhar com a qualificação num grupo que inclui ainda Gana e Coreia do Sul. Para além do impacto desportivo, o golo histórico de Wissa carrega uma dimensão humanitária: ao celebrar, o avançado ergueu os braços e apontou para o céu, mas as suas palavras pós-jogo transformaram o relvado em tribuna para denunciar um conflito esquecido. Com o Mundial alargado a 48 seleções, a presença de equipas africanas multiplica-se, e a história de Wissa — da mensagem no Facebook à superação do ácido — pode inspirar uma geração de jovens talentos da diáspora a abraçar as suas raízes. O Congo, enfim, tem um herói improvável e uma voz que transcende o futebol.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A imprensa latino-americana retrata Wissa como um herói que superou o pesadelo de um ataque com ácido para marcar o primeiro gol histórico do Congo na Copa do Mundo, estragando a estreia de Cristiano Ronaldo. A narrativa enfatiza sua incrível jornada pessoal, desde pedir convocação pelo Facebook até se tornar um símbolo de resiliência.
A imprensa continental europeia relata a história de Wissa com distanciamento comedido, observando o dramático ataque com ácido e seu gol histórico contra Portugal. Apresenta os fatos de sua resiliência e do resultado futebolístico sem partidarismo emocional explícito.
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