
Crise de combustíveis alastra-se na Rússia e atinge mais de 60 regiões
Restrições à venda de gasolina e diesel, filas nas bombas e importações de emergência revelam a dimensão de uma crise energética sem precedentes recentes, desencadeada por ataques a refinarias.
A crise de abastecimento de combustíveis na Rússia generalizou-se nas últimas semanas, com algum tipo de limitação à venda a retalho já em vigor em mais de 60 das 89 regiões do país, incluindo territórios ocupados da Ucrânia. O processamento de petróleo caiu 25% em junho face ao ano anterior, para 3,91 milhões de barris por dia, o valor mais baixo em mais de duas décadas, enquanto a produção de gasolina recuou 17%, para 850 mil barris diários, bastante abaixo das necessidades do mercado interno.
A contração da oferta é atribuída por observadores em Moscovo à intensificação dos ataques de drones ucranianos contra infraestruturas de refinação, que retiraram capacidade de produção de forma persistente. A resposta do governo federal incluiu a autorização temporária da venda de gasolina com norma Euro-3, menos exigente do ponto de vista ambiental, e o recurso a importações — já confirmadas a partir da Índia e em negociação com a Bielorrússia e o Cazaquistão. Apesar das medidas, a escassez mantém-se, agravada por disrupções logísticas e pela pressão sobre as reservas estratégicas, que, segundo o presidente Vladimir Putin, ainda se aproximam dos níveis de 2025.
No terreno, as administrações regionais impuseram limites que variam entre 20 e 50 litros por automóvel, proibiram o enchimento de jerricãs e, em cidades como Novorossiysk, suspenderam temporariamente a venda livre, permitindo o abastecimento apenas a entidades jurídicas através de cartões de combustível. Em Irkutsk e na região de Zabaikalsky, as autoridades decretaram estado de prontidão e destacaram patrulhas policiais para as gasolineiras. O vice-primeiro-ministro Alexander Novak determinou que as petrolíferas assegurem remessas adicionais para estas regiões, enquanto o impacto se propaga para a Ásia Central: o Uzbequistão regista subidas acentuadas de preços e o Quirguistão solicitou ajuda externa.
A pressão sobre o consumidor russo reflete-se num aumento da procura por veículos elétricos chineses, cujas vendas diárias numa concessionária de Moscovo passaram de duas ou três unidades por mês para o mesmo número por dia. Para os mercados lusófonos, a crise introduz um fator de incerteza nos preços globais do petróleo, com eventuais repercussões para exportadores como o Brasil e Angola, caso a instabilidade na oferta russa se prolongue. O próximo marco a observar será a eficácia das ordens de Novak para reforçar o abastecimento interno e a eventual extensão do embargo à exportação de gasolina, atualmente em vigor até 31 de julho.
| Imprensa russa e CEI | +0.40 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa europeia continental | −0.70 | critical |
| Imprensa latino-americana | 0.00 | neutral |
A Rússia gerencia a crise com medidas direcionadas, importando gasolina e contendo o desconforto. O sistema resiste apesar das pressões externas.
Um problema sistêmico é transformado em um contratempo solucionável, minimizando sua escala e transferindo a culpa para fatores externos.
A Europa denuncia a crise como prova do isolamento e ineficiência russos, ligando-a diretamente à guerra na Ucrânia.
Estabelece-se um nexo causal entre as escolhas bélicas de Moscou e as dificuldades internas, transformando um problema técnico em uma condenação política.
A América Latina observa a crise russa como um dado de mercado, avaliando possíveis efeitos sobre preços e suprimentos regionais.
Adota-se uma linguagem técnico-econômica que despolitiza a crise, reduzindo-a a uma variável de oferta e demanda.
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