
Célula sintética completa ciclo de vida, mas está longe de ser considerada viva
Protótipo batizado de SpudCell alimenta-se, cresce e replica-se por várias gerações, aproximando a biologia sintética de organismos artificiais, enquanto outros grupos modificam parasitas para administrar fármacos.
Investigadores da Universidade de Minnesota construíram, a partir de componentes químicos não vivos, uma célula sintética capaz de se alimentar, crescer, copiar o seu genoma e dividir-se ao longo de múltiplas gerações. O protótipo, denominado SpudCell, representa o primeiro sistema celular criado de raiz (abordagem bottom-up) a completar ciclos sucessivos de crescimento e divisão, segundo um manuscrito divulgado a 1 de julho, ainda não revisto por pares. A estrutura, com um genoma mínimo de 90 mil pares de bases distribuídos por sete plasmídeos, não é considerada viva, mas demonstra que funções básicas associadas à vida não dependem de um “impulso mágico”, nas palavras da líder do projeto, Kate Adamala.
A SpudCell é montada a partir de cerca de 150 a 200 moléculas, incluindo lípidos que formam membranas, proteínas e genes de um vírus e da bactéria E. coli. Ao contrário das células naturais, não possui citoesqueleto: a divisão ocorre por acumulação de proteínas na superfície da membrana até que a tensão mecânica a rompa. A grande limitação atual é a dependência de ribossomas fornecidos externamente, o que restringe cada linhagem a cinco a dez gerações. Ainda assim, os investigadores introduziram uma modificação genética que aumentou a produção de uma proteína de fusão, resultando em células que cresceram mais depressa e geraram mais descendentes — um comportamento análogo à seleção natural.
Este avanço insere-se num momento de aceleração da biologia sintética. Na mesma semana, um estudo publicado na Nature Communications por cientistas da Universidade de Washington em St. Louis mostrou que é possível modificar geneticamente ancilostomídeos (hookworms) com CRISPR para produzirem anticorpos terapêuticos no interior de hamsters, uma prova de conceito para “fábricas vivas” de medicamentos. Em paralelo, start-ups biotecnológicas exploram a edição epigenética para silenciar ou reativar genes sem cortar o ADN, com programas experimentais dirigidos a doenças como colesterol elevado e distrofia muscular. Observadores europeus, como Yuval Elani, do Imperial College de Londres, consideram a SpudCell “um verdadeiro marco”, mas sublinham que ainda não se trata de vida.
Os próximos passos incluem dotar a SpudCell da capacidade de fabricar os seus próprios ribossomas e estabilizar o genoma, metas para as quais a equipa criou a plataforma colaborativa aberta Biotic. O manuscrito será submetido para publicação com revisão de pares, enquanto o grupo dos ancilostomídeos trabalha para aumentar a produção de proteínas terapêuticas. A comunidade científica lusófona, com grupos ativos em biologia sintética no Brasil e em Portugal, acompanha estes desenvolvimentos, que prometem novas ferramentas para compreender a origem da vida e para aplicações que vão da captura de carbono à produção de fármacos.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
2 grupos editoriais · 5 idiomas
Um marco na biologia sintética: a primeira célula artificial com ciclo de vida completo. SpudCell, construída do zero com componentes químicos inanimados, abre caminho para organismos personalizados que funcionam como fábricas de medicamentos.
Um passo rumo à vida artificial, mas com reservas. SpudCell imita o ciclo celular, porém os pesquisadores alertam que não é um organismo vivo, moderando as expectativas sobre usos imediatos.
Amplie o olhar
Trump utiliza pela primeira vez o Air Force One doado pelo Catar e reacende debate ético
10 idiomas · 26 veículos
De Economy & MarketsEUA rejeitam extensão do T-MEC e impõem revisões anuais até 2036
7 idiomas · 33 veículos
De TechnologyWhatsApp introduz nomes de utilizador e Índia trava funcionalidade por receio de fraudes
3 idiomas · 12 veículos