
Chuva e calor marcam Orgulho na Cidade do México e em Budapeste
Sob chuva intensa na capital mexicana e calor recorde na Hungria, marchas reúnem multidões em celebração e reivindicação de direitos LGBTI+ em cenários políticos opostos.
No vaivém da Marcha do Orgulho da Cidade do México, entre arco-íris e cânticos, um homem originário de Zacatecas chamava a atenção com um traje coberto de pequenos bonecos de peluche. Eram chaveiros, explicava Ángel, que simbolizavam “a chave para os direitos e as liberdades”. A peça artesanal, tão frágil quanto festiva, resumia o espírito da 48.ª edição do evento: uma mistura de carnaval e luto, de grito político e expressão íntima. Naquele sábado de junho, mais de 550 mil pessoas — segundo o governo local — tomaram as avenidas da capital, mas a festa teve de enfrentar uma chuva repentina e um desvio no trajeto histórico, já que o Zócalo estava ocupado pelo “Fan Fest” do Mundial de Futebol.
A multidão percorreu o Paseo de la Reforma desde o Ángel de la Independência, mas, para vários coletivos, a relocalização do palco final para o Eixo Central, junto ao Palácio de Bellas Artes, foi lida como um cerceamento. A contramarcha, que saiu da Glorieta do Ahuehuete, exibiu faixas contra a FIFA e um governo que, afirmavam, “assassina, criminaliza e desaparece” as dissidências. Mães de pessoas desaparecidas carregaram fotografias sob a chuva, lembrando que o orgulho não se aparta das outras lutas. Pela primeira vez, trinta polícias da própria comunidade LGBTI+ marcharam num carro alegórico oficial, enquanto agentes aplicavam testes de alcoolemia aos condutores dos veículos. Um corredor de silêncio foi respeitado diante do antimonumento dos 43 estudantes de Ayotzinapa.
A mais de dez mil quilómetros dali, em Budapeste, o Orgulho húngaro vivia a sua primeira edição desde a derrota eleitoral de Viktor Orbán. Com termómetros a chegar aos 38 °C, mais de dez mil pessoas atravessaram a ponte Erzsébet ao som de música e bandeiras da União Europeia. “Está tudo muito mais animado”, disse a estudante Fanni Fajth, de 18 anos. No ano anterior, a tentativa de proibir a marcha transformara-a num protesto antigovernamental de massas. Agora, a proibição fora revogada, mas as leis discriminatórias aprovadas durante a era Orbán — que impedem a adoção por casais do mesmo sexo e vetam conteúdos sobre diversidade nas escolas — continuavam em vigor. O novo primeiro-ministro, Péter Magyar, pedia “paciência”. Para alguns participantes, a liberdade de marchar era um alívio, mas a igualdade plena ainda parecia distante.
Ambas as paradas, no México e na Hungria, encenam um calendário do orgulho que o mundo herdou dos motins de Stonewall, em 1969. Porém, cada país inscreve a data nos seus próprios conflitos. Observadores na América Latina notam como as marchas da região estão historicamente entrelaçadas com as lutas camponesas, indígenas e contra o autoritarismo — não por acaso, no México, a primeira faísca do movimento foi acesa por um despedimento homofóbico numa loja Sears nos anos 1970, e os manifestantes de hoje empunham bandeiras da Palestina ao lado das do arco-íris. Na perspetiva de Budapeste, o Pride funciona como barómetro da saúde democrática: depois de anos a ser empurrado para a semiclandestinidade, a sua simples realização legal é, em si, um triunfo simbólico, ainda que a paridade jurídica real permaneça uma promessa adiada.
Ao cair da noite na Cidade do México, o asfalto molhado refletia as luzes do Palácio de Bellas Artes e os restos de um dia em que as autoridades recolheram e destruíram mais de 29 mil latas de cerveja para conter excessos. Veronica Castro, coroada “rainha dos corações” da comunidade, acenava de um veículo especial, ladeada por uma multidão que a ovacionava. A poucos metros, as imagens dos desaparecidos, erguidas por mãos firmes, desenhavam a sombra que a celebração não apaga. Nas duas cidades, a festa terminou com a sensação de que o orgulho é, acima de tudo, uma negociação permanente entre o que já se conquistou e o que ainda está por vir.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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The Latin American press portrays the Mexico City Pride march as a well-organized mass event with 550,000 attendees and no incidents. Focus is on logistics, security, and institutional participation, while protests are sidelined. The tone is celebratory yet pragmatic, with numbers and operational details.
Atlantic press highlights the Budapest march as a triumph over former PM Orbán, with tens of thousands braving record heat. The narrative is one of victorious resistance, celebratory over the fall of the anti-LGBTQ+ regime. The event is framed as a political turning point.
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