
Entre paradas vazias e caminhadas pela memória, a América dos 250 anos procura-se no espelho
Enquanto a feira oficial em Washington se esvazia sob polémicas, pequenas cidades, marchas históricas e exposições comunitárias revelam as muitas camadas da identidade norte-americana.
Em Cumberland, Maryland, o som distante dos tambores anunciava o desfile dos 250 anos da independência. Perto dos pés de Al Fieldstein, um reformado de setenta anos que recordava os veteranos da Grande Guerra já desaparecidos, crianças brincavam enquanto aguardavam a passagem das bandas e carros alegóricos. “Isto já foste tu”, disse-lhe o jornalista, apontando para os mais novos. “Somos uma encruzilhada da América”, respondeu Al, evocando a primeira estrada nacional e os primeiros caminhos-de-ferro que ali convergiram. A gerente da rua principal, Melinda Kelleher, contara antes como a vila se unira para criar um evento capaz de reunir a comunidade, com as suas trinta novas lojas e concertos de verão.
A pouco mais de duzentos quilómetros, na capital Washington, o cenário era outro. A Grande Feira Estatal Americana, evento principal do “Freedom 250” promovido pelo presidente Trump, abriu portas na National Mall sob chuva e apagões. As imagens das tardes seguintes mostravam longos corredores vazios, uma roda gigante de 33 metros parada e um músico cristão a atuar para duas pessoas. Uma réplica de um Arco do Triunfo em madeira, que uma visitante associou à Alemanha, e o deslize de um pavilhão que exibiu a bandeira confederada reforçaram a sensação de um espetáculo partidário. “Estou cansada da política”, disse uma participante, enquanto uma vaca chamada Melania desfilava como homenagem à primeira-dama.
Num registo oposto ao vazio institucional, outras celebrações procuravam o significado dos 250 anos em silêncio e movimento. O historiador Anthony Cohen iniciou a “Caminhada da Liberdade”, refazendo a pé e de comboio uma rota do Caminho de Ferro Subterrâneo desde Maryland até Toronto, com uma estátua de Harriet Tubman e o descendente de esclavagistas Tom DeWolf, que quis “escrever um novo legado”. A comunidade judaica, por sua vez, inaugurou mostras como “Circa 1776” em Nova Iorque e “A Primeira Saudação” na Filadélfia, resgatando cartas de George Washington onde prometia que cada um se sentaria “em segurança debaixo da sua videira e figueira”.
Esses gestos encontram eco no que os americanos mais valorizam no seu passado. Um inquérito da NBC revelou que quase dois terços dos inquiridos apontam a expansão de direitos como o maior feito do país, com a abolição da escravatura no topo, seguida do sufrágio feminino e da chegada à Lua. A vitória na Segunda Guerra Mundial surge logo a seguir, lembrada como triunfo da democracia e da união. No entanto, 77% acreditam que os Pais Fundadores estariam “desapontados” com o presente.
Nas Black Hills do Dakota do Sul, o Monte Rushmore prepara-se para receber Trump num comício com fogo-de-artifício. Ali, os rostos de Washington, Jefferson, Lincoln e Roosevelt convivem com um discreto jardim etnobotânico que aponta para locais sagrados dos Lakota, lembrando as “inclementes selvagens índias” citadas na Declaração de Independência. Entre o ribombar dos canhões e o perfume da salva, a América dos 250 anos procura-se em muitos reflexos — e alguns espelhos permanecem vazios.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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The American 250th celebration reveals a divided nation: small towns organize inclusive parades while a controversial state fair sponsored by Trump faces low attendance and Confederate flag issues. Meanwhile, a historian's walk along the Underground Railroad reminds that the nation's journey includes slavery and the struggle for freedom. The coverage highlights both local grassroots unity and national political strife.
American Jewish organizations mark the 250th anniversary with a mix of celebration and caution, as the event becomes politicized. Public opinion shows most Americans believe the founders would be disappointed in today's nation, yet there is still nostalgia for past bicentennials. The Jewish community navigates religious freedom debates while participating in the broader commemoration.
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