
A gentileza que confundem com flerte e a nova coreografia dos afetos
Entre a pressa dos rótulos e o cansaço da eterna conversa, emerge uma geração que tenta deixar as relações florescerem sem roteiro — com todos os riscos que isso carrega.
O copo de cerveja ainda suava na mesa do bar quando a amiga revirou os olhos e disparou: “Deus, como tu és namoradeira”. A acusação, relatada num portal cultural de Acra, veio acompanhada de um olhar para o rapaz com quem ela apenas trocara uma conversa casual. Não havia paquera, garantia a jovem; apenas a vontade de ser simpática. Mas naquele instante, mais uma vez, a linha entre a cortesia e o flerte se dissolveu, e ela se viu prisioneira do mal-entendido que assombra os vínculos contemporâneos: a gentileza lida como investida amorosa.
O episódio expõe o cansaço com as etiquetas que hoje enquadram qualquer aproximação. Enquanto o “wildflowering” — termo cunhado pela plataforma Bumble para descrever relações que brotam sem a ânsia de rótulos — ganha terreno entre jovens adultos, ele é ao mesmo tempo um respiro e uma armadilha. Deixar o vínculo florescer “como flor silvestre”, no seu ritmo, promete alívio face à ditadura do “o que nós somos?”. Mas, como alertam analistas de comportamento em Lisboa e no Rio de Janeiro, a ausência de definição também pode mascarar a indisponibilidade afetiva e transformar a leveza em fonte de ansiedade para quem espera reciprocidade.
A tensão estende-se a territórios mais espinhosos. A mesma crónica ganesa que flagrou a cena do bar também expôs a pergunta incómoda: e quando a pessoa que se aproxima do teu ex é a tua amiga? O código tácito entre amigas diz que é traição; a vida real, porém, está cheia de zonas cinzentas. A resposta, ouvida de porta-vozes da psicologia em diferentes latitudes, é quase um mantra: honestidade e comunicação. O mesmo princípio se aplica à ex-amiga que, durante uma noite de bebedeira, desferiu insultos cruéis sobre a solteirice alheia e três anos depois reaparece na festa de aniversário de uma conhecida comum. Especialistas aconselham um tratamento de “estranha no avião”: um aceno polido, os fones de ouvido simbólicos, e a recusa firme de revisitar mágoas num evento que não é sobre o passado.
Por baixo dessas coreografias sociais, palpita uma fadiga existencial — sobretudo feminina. Jovens na casa dos vinte descrevem um esgotamento com o esforço desproporcional de conquistar alguém que não quer nada sério, com os joguinhos de poder e com a repetição exaustiva dos primeiros encontros. “Já não tenho vontade de procurar”, confessa uma voz de Acra, eco do que se ouve em tertúlias no Mindelo ou em mesas de café em São Paulo. A mesma mulher que se recusa a baixar aplicativos de encontros e prefere o sofá e uma comédia romântica também se interroga, noutra publicação, se a exaustão que sente após algumas horas com as sobrinhas a desqualifica para a maternidade. A pergunta, acolhida por colunistas de Telavive, desmonta o mito da abnegação total: não é preciso desaparecer de si para amar — a lição vem de Winnicott e da sua “mãe suficientemente boa”, capaz de falhar, reparar e seguir presente.
Resta a imagem de uma mulher de trinta anos que, depois de um coração partido, se senta a escrever uma lista de defeitos do ex — as pernas finas, a rispidez com o gato, as tardes de videojogo em roupa interior. Ao lado, no pulso, um elástico que estala a cada pensamento intruso. A pequena dor não é punição; é âncora. Lembra que, entre a gentileza que confundem com flerte e o afeto que insiste em doer, a única coreografia que vale é a que respeita o próprio ritmo — ainda que ele soe como o estalo seco de um elástico contra a pele.
| Imprensa latino-americana | −0.10 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa do Sudeste Asiático | 0.00 | neutral |
| Imprensa israelense | −0.30 | critical |
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