
Acusações de antissemitismo e luta de poder abalam diplomacia europeia
A chefe da política externa da UE, Kaja Kallas, enfrenta acusações de antissemitismo e uma ofensiva para esvaziar o seu cargo, expondo fraturas internas em Bruxelas.
O cargo de alta representante para a política externa da União Europeia viu-se subitamente no centro de uma dupla tempestade, depois de Kaja Kallas ter sido acusada de antissemitismo por ter comparado o tratamento israelita aos palestinianos com o apartheid sul-africano. A polémica, noticiada por um órgão de comunicação de Bruxelas, provocou uma reação imediata do Comité Judaico Americano, que considerou as declarações um combustível para a deslegitimação de Israel. O episódio, porém, não é um raio isolado: surge num momento de fragilidade aguda da antiga primeira-ministra estónia, cuja autoridade está a ser desafiada por uma reconfiguração do equilíbrio de poderes no seio das instituições europeias.
A tensão entre Kallas e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, é descrita por fontes diplomáticas como um confronto cada vez mais aberto. Um documento informal ligado ao governo francês — a que o Euronews teve acesso — explora opções de reforma que retirariam à chefe da diplomacia comunitária competências substanciais, transferindo-as para a Comissão ou devolvendo-as às capitais nacionais. Em Bruxelas, não são poucos os que suspeitam que o escândalo mediático em torno das declarações de Kallas sobre Israel seja, na verdade, um subproduto dessas lutas intestinas, uma forma de pressão adicional para justificar o esvaziamento do seu posto.
Na ótica de Lisboa, onde se acompanha com atenção a evolução da política externa comum, há uma crescente apreensão com a perda de coerência da voz europeia no mundo. A diplomacia portuguesa, historicamente empenhada numa ação externa robusta e autónoma da UE, vê com preocupação a possibilidade de um retrocesso para uma lógica intergovernamental que enfraqueceria a capacidade de resposta a crises como as do Médio Oriente ou do Sahel. Em Brasília, a leitura é distinta: o governo brasileiro, que mantém laços estreitos com o bloco europeu, observa estas desavenças internas com uma dose de cepticismo, já que uma UE desunida tende a ser um parceiro negocial menos exigente, mas também menos previsível.
Para os países africanos de língua oficial portuguesa, a comparação com o apartheid não passou despercebida. A evocação desse regime de segregação carrega um peso histórico particular em nações como Angola e Moçambique, cujas lutas de libertação se travaram também contra potências coloniais que hoje integram a União. Contudo, a instrumentalização dessa retórica no quadro de uma luta pelo poder em Bruxelas suscita desconfiança: receia-se que o debate sobre justiça e direitos humanos seja usado como mero trunfo numa disputa burocrática, desviando a atenção dos problemas reais no terreno.
O futuro imediato da ação externa europeia dependerá da capacidade de Kallas resistir a esta ofensiva e de os Estados-membros decidirem se querem uma diplomacia comunitária forte ou um regresso ao protagonismo das capitais. A crise é, no fundo, um sintoma da eterna tensão entre o método supranacional e o intergovernamental que define a construção europeia. Para observadores em Maputo ou Díli, a questão transcende o mero interesse protocolar: o tipo de parceiro que a UE escolhe ser terá impacto direto nas relações comerciais, nos programas de ajuda ao desenvolvimento e na mediação de conflitos em regiões onde a influência europeia ainda é relevante.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A chefe da diplomacia europeia provocou indignação ao comparar a ocupação israelense ao apartheid sul-africano. Grupos judeus alertam que essa retórica alimenta uma campanha perigosa de deslegitimação do Estado judeu. Tais comparações são condenadas como antissemitas.
Bruxelas está mergulhada numa luta pelo poder, com suspeitas recaindo sobre a chefe da Comissão por supostamente tentar reduzir a autoridade da alta representante. Um documento vazado explora reformas que centralizariam os assuntos externos sob o controle da Comissão. A controvérsia sobre as declarações sobre o apartheid é apenas um pano de fundo para essas brigas internas.
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