
A geração que adia o altar e busca pertencimento entre fusos horários
Jovens adiam casamento e filhos, mas enfrentam solidão, mudanças de país e a distância entre a vida idealizada nas redes e a rotina real.
Faltavam poucas semanas para a colação de grau quando a jovem, sentada no quarto que ainda exibia projetos de bricolagem nas paredes, ouviu pela enésima vez a pergunta: “E então, quando vai assentar?”. A cena, narrada num depoimento publicado no Gana, captura um desconforto que atravessa continentes. Ela tinha um relacionamento estável de seis anos, um blog pessoal, dezenas de artigos publicados e uma conta bancária que não permitia acrescentar guacamole ao pedido no Chipotle. Ainda assim, o que parecia interessar a muitos era apenas o calendário do casamento e dos filhos. “As pessoas não se endividam durante quatro anos para ter bebés logo após a formatura”, escreveu, resumindo um sentimento que ecoa entre os membros das gerações Y e Z em Lisboa, São Paulo ou Luanda.
Essa recusa em seguir o roteiro tradicional da vida adulta não é apenas uma afirmação individual: é um fenómeno demográfico e afetivo. Observadores na Austrália notam que mais de metade da população acredita que o número de amigos próximos está a encolher, e 12% afirmam não ter nenhum amigo íntimo — um vazio sentido com mais intensidade justamente pelos mais jovens. O escritório, que durante décadas funcionou como fábrica de laços, perdeu espaço. Uma mentora australiana, ao discursar na própria festa de reforma, arrancou aplausos ao lamentar: “Foi aqui que encontramos uma família. Não se consegue isso numa reunião do Zoom”. O teletrabalho, porém, não é apenas um obstáculo à socialização: um estudo da London School of Economics, citado em Espanha, indica que as empresas que mantiveram o trabalho remoto reduziram em mais de 14% a contratação de recém-licenciados, por considerarem que a aprendizagem à distância torna o talento júnior um investimento menos atrativo.
Diante desse cenário, a busca por pertencimento empurra muitos para a mobilidade geográfica. Famílias americanas trocam Atlanta por Utrecht, nos Países Baixos, em busca de segurança, diversidade e de uma vida onde os filhos não precisem de simular trancas na escola. Um britânico recém-casado desembarca em Chicago e reconstrói a identidade entre tacadas de softball e eventos da câmara de comércio britânico-americana. Uma relação amorosa entre os Estados Unidos e a Dinamarca sobrevive a contar dias: o limite de 90 dias no espaço Schengen dita o ritmo dos reencontros, e cada partida no aeroporto é também um exercício de matemática afetiva. Até quem troca Nova Iorque por um subúrbio no estado de Washington descobre que a desaceleração pode abrir espaço para aulas de tecelagem com senhoras de um centro comunitário e para um grupo de conversação em espanhol numa cervejaria local.
As redes sociais, entretanto, oferecem um espelho distorcido dessa procura. Uma funcionária da Google na Índia relatou ter visitado a sala de PlayStation e o ginásio do escritório e encontrado ambos quase vazios — um contraste com os vídeos virais que mostram espaços de lazer como se fossem a rotina. “As regalias são reais, mas a carga de trabalho também”, escreveu, ecoando uma perceção que, segundo analistas indianos, se repete em muitos campi corporativos. Até o frio persistente na cabine dos aviões, que os passageiros costumam atribuir a uma suposta poupança das companhias aéreas, tem outra explicação: especialistas em aviação civil revelam que a temperatura é mantida baixa para reduzir o risco de desmaios, já que a baixa pressurização e a humidade mínima tornam o organismo mais vulnerável à hipóxia.
No final, o que emerge é uma geografia emocional onde as certezas herdadas se dissolvem e as novas âncoras — um clube de softball, um visto respeitado, um grupo de WhatsApp que sobrevive às trincheiras partidárias — são construídas com a fragilidade de quem sabe que a próxima mudança pode estar a um alerta de voo de distância. Talvez a temperatura real da vida adulta contemporânea seja essa: um ambiente controlado, ligeiramente frio, onde cada um veste o seu casaco e segue viagem.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
2 grupos editoriais · 2 idiomas
O escritório já foi uma segunda família, onde se forjavam amizades para a vida toda. A geração móvel de hoje, trabalhando remotamente ou mudando-se com frequência, corre o risco de perder esses laços sociais vitais, ficando isolada e nostálgica por um sentimento de pertencimento que está desaparecendo.
O teletrabalho está dificultando que recém-formados encontrem e mantenham empregos. Sem o ambiente diário do escritório, os jovens perdem oportunidades de mentoria e aprendizado informal, levando ao isolamento e a carreiras estagnadas.
Amplie o olhar
Trump utiliza pela primeira vez o Air Force One doado pelo Catar e reacende debate ético
10 idiomas · 26 veículos
De Economy & MarketsEUA rejeitam extensão do T-MEC e impõem revisões anuais até 2036
7 idiomas · 33 veículos
De TechnologyWhatsApp introduz nomes de utilizador e Índia trava funcionalidade por receio de fraudes
3 idiomas · 10 veículos