
A carne envenenada, a cabra e o megafone: quando as palavras se tornam caso de polícia
Comentários de um apresentador mexicano sobre envenenar cães desencadearam protestos, perda de patrocinadores e uma proposta de lei, ecoando um momento global de regulação da palavra pública.
Na quinta-feira, 16 de julho, em frente às instalações da TV Azteca na Cidade do México, um grupo de ativistas segurava cartazes e coleiras. Uma cabra branca, trazida pelos manifestantes, pastava alheia ao burburinho, enquanto cães de diversos portes acompanhavam os donos. “Queremos entregar um pliego petitorio”, gritava uma ativista, exigindo a saída do ar do programa “Ventaneando”. O motivo: uma frase dita ao vivo dez dias antes pelo condutor Pedro Sola, de 79 anos.
No programa de 6 de julho, Sola queixou-se da presença de cães em restaurantes e supermercados e disparou: “Con ganas de aventar un trozo de carne envenenada”. A colega Mónica Castañeda tentou contê-lo, mas ele ainda acrescentou: “Dan ganas de darles un balazo… a los dueños”. O vídeo viralizou. Em poucos dias, as marcas Panditas, Trident, Halls e Clorets retiraram o patrocínio. A TV Azteca divulgou um comunicado intitulado “Aliados de los animales”, lido ao vivo por Pati Chapoy, no qual anunciava um programa interno de sensibilização, mas não aplicava sanções ao apresentador.
A indignação extravasou as redes. A deputada Elizabeth Mateos, do partido Morena, apresentou no Congresso da Cidade do México uma iniciativa para criminalizar a apologia do maltrato animal, com penas de um a quatro anos de prisão, agravadas quando o emissor for figura pública. Embora a Constituição mexicana proíba a retroatividade da lei, o gesto legislativo foi lido por analistas da capital como um sintoma de um novo patamar de escrutínio sobre a palavra de celebridades. Na perspetiva de observadores em Lisboa, o episódio recorda o modo como as declarações de figuras mediáticas podem funcionar como catalisadores de mudanças normativas, à semelhança do que ocorreu em Portugal com a lei que criminalizou os maus-tratos a animais em 2014, após casos de grande comoção pública.
A controvérsia mexicana não é um caso isolado. Em Bogotá, um juiz condenou um homem a 20 meses de prisão por agredir o próprio cão com um látego, após um vídeo se tornar viral — a sentença baseou-se na chamada Lei Ángel, que endureceu as penas para o maltrato animal na Colômbia. Em Salta, na Argentina, um homem recebeu três meses de prisão condicional por golpear a enteada de dois anos, num processo abreviado que evidencia a pressão social por respostas rápidas. Até mesmo em Abuja, na Nigéria, o Senado aprovou uma multa de 50 mil nairas para quem pregar ou vender mercadorias dentro de veículos comerciais, numa tentativa de regular a conduta e o discurso em espaços coletivos. Em todos esses episódios, a fronteira entre a palavra, o gesto e a consequência legal parece estar a ser redesenhada.
De volta à Cidade do México, a cabra da manifestação foi embora, mas o pliego petitorio foi entregue. Pedro Sola pediu desculpas, mas os ativistas garantem que os casos de envenenamento de animais aumentaram desde as suas declarações. A proposta de lei segue o seu trâmite, sem data para votação. No estúdio do “Ventaneando”, a câmara voltou a enquadrar o apresentador, agora mais contido, enquanto as redes sociais continuam a produzir memes com o seu apelido: “Sola”. A imagem que perdura é a de um país — e de um continente — a debater o peso exato das palavras ditas diante de um microfone.
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