
A jaqueta, o cão e o freezer: as cábalas que mantêm Milei longe da final
O presidente argentino não vai ao estádio por superstição, repetindo rituais que vão do casaco da petrolífera YPF à imobilidade dos torcedores, numa cultura onde o acaso se combate com gestos minuciosos.
Foi um gesto banal que quase custou a sorte. Durante o jogo contra a Suíça, nos quartos de final, Javier Milei sentiu calor e tirou o casaco grosso da petrolífera YPF que usava na sala de cinema da residência presidencial de Olivos. A Argentina sofreu um golo. O presidente voltou a vesti-lo de imediato e, desde então, não o despiria mais. “Quando o tirei, marcaram-nos um golo. Voltei a pô-lo e nunca mais o tirei”, contou à rádio El Observador, numa entrevista em que confirmou que não viajará para Nova Jérsia para assistir à final do Mundial de 2026 contra a Espanha.
A decisão de Milei inscreve-se numa teia de superstições que em Buenos Aires se designam por “cábalas” e que, nesta edição do torneio, ganharam um protagonista improvável no chefe de Estado. O presidente, um libertário que chegou ao poder com promessas de dolarização e cortes radicais, explicou que “em circunstância alguma” quebrará o ritual de ver os jogos a partir de Olivos, onde acompanhou as sete vitórias consecutivas da campeã em título. A irmã e secretária-geral da presidência, Karina Milei, partilha o sofá. A jaqueta da YPF, vestida sobre o frio do inverno austral sem aquecimento ligado, tornou-se um amuleto presidencial.
Na Argentina, as cábalas não são excentricidade individual, mas um código coletivo que organiza a ansiedade de uma nação. Há quem congele fotografias de adversários no congelador — Rodrigo Serna, um adepto de 11 anos, aprendeu com o avô a pôr a imagem do rival no frio. Há quem vista o cão com a camisola da seleção, como fez a vendedora Estela Vargas com o seu buldogue inglês, ou quem obrigue a sogra a tricotar um cachecol azul e branco na cozinha durante os jogos. O sociólogo Diego Morci, citado pela imprensa internacional, nota que “os argentinos não se veem como meros espectadores, mas como parte do acontecimento”, e que as cábalas lhes dão a sensação de intervirem no resultado. Em toda a América Latina, e em particular no Brasil, as “simpatias” e mandingas cumprem função semelhante, mas na Argentina a intensidade é tal que até os presidentes se curvam ao ritual.
A tradição presidencial de evitar os estádios em momentos decisivos remonta a 1990, quando Carlos Menem visitou a seleção antes da estreia e a Argentina perdeu de forma surpreendente com os Camarões. Menem foi apelidado de “mufa” — pé-frio — e, desde então, nenhum chefe de Estado em exercício voltou a aparecer num jogo do Campeonato do Mundo. Milei, que se declara aliado de Donald Trump e que inicialmente prometera alinhar a política externa com Washington, opta assim por ficar em casa, enquanto o presidente norte-americano e o rei Felipe VI de Espanha confirmam presença no MetLife Stadium. A ausência do líder argentino é lida em Buenos Aires como um gesto de prudência supersticiosa, não como desinteresse diplomático.
No bairro operário de Liniers, o contabilista Andrés González resume a regra: “Durante o jogo, ninguém se levanta do lugar onde estava sentado da última vez”. Se alguém for à casa de banho e a Argentina marcar, fica retido ali até ao apito final. A imobilidade, o casaco, o cão virado para a televisão — cada pormenor carrega o peso de uma final. No congelador de Rodrigo Serna, a fotografia de um jogador espanhol aguarda, imóvel, o desfecho de um domingo em que a Argentina tentará reter o título mundial sem que o seu presidente saia do sofá.
| Imprensa latino-americana | +0.10 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa europeia continental | −0.20 | neutral |
| Imprensa africana subsaariana | 0.00 | neutral |
Milei mantém sua tradição: a cábala é sagrada, e a final é assistida de Olivos com a jaqueta da sorte.
A narrativa normaliza a superstição ao inseri-la na paixão do futebol argentino, usando as próprias palavras do presidente para torná-lo simpático e próximo do torcedor.
Qualquer crítica ou sugestão de irracionalidade é omitida, o que poderia fazer o presidente parecer menos sério.
O presidente argentino mostra superstição irracional ao se recusar a viajar para a final.
O relatório usa o rótulo 'superstitieux' para criticar sutilmente, implicando que um líder deve ser racional e não governado por tais crenças.
O detalhe humorístico sobre suar e o contexto cultural da cábala como prática comum são omitidos, tornando a decisão mais excêntrica.
O presidente argentino explica sua escolha de não comparecer à final por superstição, um fato curioso, mas sem importância.
A história apresenta a decisão como uma explicação direta sem comentários, fazendo parecer banal e não digna de notícia.
A normalização cultural da cábala e os comentários humorísticos do presidente são omitidos, tirando a história de sua cor local.
Amplie o olhar
Hamas elege negociador-chefe Khalil al-Hayya como novo líder político
8 idiomas · 26 veículos
De Economy & MarketsPetróleo Brent supera US$ 90 com escalada de ataques entre EUA e Irã no Estreito de Ormuz
8 idiomas · 21 veículos
De TechnologyModelo chinês Kimi K3 abala mercados e expõe limites de capacidade computacional
9 idiomas · 15 veículos