
Duma russa vota lei que corta acesso bancário e a bens de exilados críticos do Kremlin
Projeto ampliado prevê bloqueio imediato de contas, proibição de transações imobiliárias e suspensão de serviços consulares para cidadãos no estrangeiro condenados por infrações políticas ou administrativas.
A Duma, câmara baixa do parlamento russo, agendou para 22 de julho a segunda leitura de um projeto de lei que impõe um conjunto alargado de restrições a cidadãos russos no estrangeiro que se furtam ao cumprimento de penas por crimes ou contraordenações de cariz político. A versão revista, aprovada em primeira leitura em dezembro de 2025 e agora endurecida, determina que bancos bloqueiem o acesso a aplicações móveis e serviços digitais, proíbe o registo de transações imobiliárias e suspende a prestação de serviços consulares, incluindo a renovação de passaportes. As medidas entram em vigor no dia seguinte à inclusão do visado numa lista a cargo do Ministério da Justiça, sem período de transição, e aplicam-se a condenados por infrações como a “descredibilização” das forças armadas, a participação em organizações “indesejáveis”, a violação do estatuto de “agente estrangeiro” ou os apelos a sanções contra a Rússia.
Na perspetiva do presidente da Duma, Vyacheslav Volodin, citado por agências russas, a iniciativa visa assegurar a “inevitabilidade da punição” e responder ao que descreve como “traidores fugitivos” que, mesmo no exterior, continuariam a usufruir de benefícios do Estado. Fontes legislativas em Moscovo sublinham que o texto permite ainda que os fundos congelados sejam usados para cobrir custas judiciais, indemnizações e apoio a familiares que permaneçam na Rússia. Em paralelo, observadores internacionais notam que a lei se inscreve num quadro mais vasto de pressão sobre opositores e exilados, que já inclui um mecanismo de confisco de bens assinado pelo Presidente Vladimir Putin em junho, com entrada em vigor a 1 de setembro, e a atuação de uma comissão interministerial que, desde o verão de 2025, pode congelar ativos sem decisão judicial.
A nova redação do diploma, segundo analistas em Moscovo, elimina as ambiguidades da versão inicial e acelera a sua aplicação prática. O texto especifica que o Serviço Federal de Registo, Cadastro e Cartografia (Rosreestr) deverá devolver sem análise os pedidos de registo de imóveis apresentados por pessoas abrangidas, e que as instituições de crédito ficam obrigadas a encerrar o acesso remoto às contas. A gestão do registo de visados passa do procurador-geral para o Ministério da Justiça, o que, na leitura de juristas citados pela imprensa independente, centraliza o controlo executivo sobre as restrições. A votação ocorre na última semana de trabalhos da atual legislatura, o que, segundo fontes parlamentares, indica uma tramitação acelerada e a expectativa de aprovação sem obstáculos.
O endurecimento legislativo coincide com relatos de que as autoridades já vêm aplicando medidas semelhantes por via administrativa. O galerista Marat Gelman, radicado no estrangeiro, afirmou à imprensa independente que cerca de uma centena de pessoas ligadas a iniciativas culturais como o festival “SlovoNovo” e o prémio literário “Dar” tiveram contas e imóveis bloqueados com base em decisões da Comissão Interministerial de Combate ao Financiamento do Terrorismo e do Extremismo, sem notificação prévia. Para observadores em Lisboa e em Brasília, a ofensiva legal contra a diáspora crítica russa insere-se num movimento mais amplo de fechamento do espaço cívico, com potenciais implicações para cidadãos com dupla nacionalidade ou residência em países lusófonos, ainda que o alcance extraterritorial das medidas dependa da cooperação das jurisdições locais. A votação final em plenário está prevista para quarta-feira, devendo o texto seguir depois para o Conselho da Federação e para promulgação presidencial.
| Imprensa europeia continental | −0.70 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa russa e CEI | +0.30 | aligned |
O Kremlin está armando a lei para esmagar a dissidência no exterior, transformando serviços bancários e imobiliários em instrumentos de punição.
Ao focar na natureza política das acusações e em medidas extremas como o bloqueio de aplicativos bancários, a narrativa constrói o projeto de lei como uma ferramenta de vingança política em vez de justiça legítima.
O bloco omite o enquadramento do governo russo do projeto de lei como parte de uma política migratória mais ampla e melhoria da segurança, o que contextualizaria as medidas como administrativas em vez de puramente punitivas.
O Estado russo está tomando as medidas necessárias para garantir que aqueles que fogem da justiça enfrentem consequências, enquanto também aborda outras questões importantes como a estabilidade do mercado de combustíveis.
Ao apresentar o projeto de lei juntamente com uma legislação não relacionada sobre combustível, a narrativa normaliza as medidas repressivas como parte de uma agenda legislativa padrão, e ao usar termos como 'esconder-se da punição' enquadra os alvos como criminosos em vez de dissidentes.
O bloco omite os crimes políticos específicos que desencadeiam as restrições, como 'desacreditar o exército' ou o status de agente estrangeiro, e não menciona que o projeto de lei visa críticos do governo, enquadrando-o em vez disso como uma medida geral contra criminosos.
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