
À beira-mar em Maratea, o debate sobre IA expõe um mundo entre o desgaste de competências e a adaptação
Enquanto um fórum italiano reunia líderes empresariais e académicos, estudos na Argentina, na Austrália e nos Emirados Árabes Unidos revelam como a inteligência artificial desafia as capacidades humanas e exige novas formas de discernimento.
Sob o sol de julho, à beira do mar Tirreno, a pequena cidade de Maratea, na Basilicata, acolheu debates, masterclasses e conversas informais sobre o futuro da inteligência artificial. O evento “LaRipartenza, liberi di pensare”, idealizado pelo jornalista Nicola Porro, transformou a orla num ponto de encontro entre administradores de grandes empresas, académicos e reguladores. Nas mesas-redondas, ouvia-se o rumor das ondas enquanto se discutiam redes energéticas, infraestruturas e a relação entre a IA e a atividade humana. Andrea Imperiali, docente na Universidade Católica de Milão e membro do comité de IA da autoridade italiana de comunicações, resumiu o espírito do encontro ao sublinhar que o debate público oscila entre narrativas apocalípticas e entusiasmos excessivos, sendo urgente uma visão sistémica que ligue os diferentes impactos da tecnologia.
A preocupação com a erosão silenciosa de competências, designada “deskilling”, ecoou com particular intensidade a partir de Buenos Aires. Eduardo Laens, diretor da tecnológica Varegos e autor do livro Humanware, descreveu o paradoxo de organizações que investem fortunas em formação enquanto a adoção apressada da IA generativa corrói exatamente o pensamento crítico, a capacidade analítica e o juízo profissional que pretendem desenvolver. Laens recomenda que os profissionais elaborem primeiro as suas próprias hipóteses antes de consultar um modelo, reservem tarefas para realizar sem assistência digital e meçam periodicamente a capacidade real das equipas quando trabalham sem apoio tecnológico. O alerta argentino encontra respaldo nos dados do Fórum Económico Mundial, que estima que 39% das competências laborais atuais se transformarão até 2030, ao mesmo tempo que 85% dos empregadores planeiam investir em requalificação.
Do outro lado do mundo, na Austrália, uma equipa da Universidade Nacional Australiana treinou pessoas para identificar rostos gerados por inteligência artificial, não através da busca de um único defeito — como um sexto dedo —, mas ensinando-as a avaliar seis qualidades percetivas: simetria, proporcionalidade, atratividade, distintividade, expressividade e memorabilidade. Os investigadores notaram que os rostos artificiais tendem a ser demasiado simétricos, polidos e genéricos, e que a chave está em desenvolver uma sensibilidade para o que parece ligeiramente estranho. O estudo, que mostrou melhorias significativas em todos os participantes, surge num contexto em que um em cada quatro australianos afirma ter encontrado uma burla com deepfake nos últimos anos, segundo o Commonwealth Bank.
Nos Emirados Árabes Unidos, a tónica recai sobre a adaptação. Razan Bashiti, diretora da organização sem fins lucrativos Injaz UAE, observa que os jovens estão a tratar a disrupção como uma oportunidade para pivotar e construir carreiras nos seus próprios termos. Descreve estudantes que recebem feedback duro sobre uma ideia de negócio, a reformulam durante a noite e regressam mais fortes no dia seguinte. Bashiti sublinha que competências como o discernimento, a adaptabilidade e a capacidade de resolver problemas sem um manual claro são as que mantêm valor num ambiente de mudança acelerada. Omar Chihane, responsável global pelo TOEFL na ETS, acrescenta que a proficiência em inglês se torna mais, e não menos, importante, pois a ligação humana significativa continua a depender da capacidade de pensar criticamente, comunicar com clareza e construir relações de confiança.
A reflexão filosófica também encontrou espaço. Na Argentina, articulistas recuperaram o pensamento de Friedrich Nietzsche e de Friedrich von Hayek para enquadrar a IA. Enquanto uns veem na tecnologia a possibilidade de uma “transmutação de todos os valores” que obrigue a humanidade a compreender o que significa ser humano, outros advertem contra a “arrogância fatal” de regular apressadamente um fenómeno que ainda mal se compreende. A própria Igreja Católica, através da encíclica Magnifica Humanitas de 2026, citada no debate argentino, afirmou não ter respostas técnicas, mas o dever de injetar discernimento moral para que a tecnologia não desumanize a sociedade. A imagem que perdura é a de um rosto artificial demasiado perfeito para ser recordado — e a de um estudante que, numa noite de trabalho, transforma uma crítica num novo começo.
| Imprensa latino-americana | −0.70 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | 0.00 | neutral |
| Imprensa do Golfo árabe | +0.70 | aligned |
| Imprensa europeia continental | +0.10 | neutral |
A IA está atrofiando as habilidades dos melhores funcionários, e a sociedade não está pronta para gerenciar essa transformação.
Um paralelo histórico-filosófico (Nietzsche) é usado para transformar um problema técnico em uma crise existencial, tornando a crítica mais radical e difícil de refutar.
Não menciona as estratégias de adaptação dos jovens nem as abordagens proativas como as descritas no bloco do Golfo.
As pessoas podem ser treinadas para detectar deepfakes, e a pesquisa está desenvolvendo métodos eficazes.
O problema é reduzido a um treinamento individual, evitando discutir as responsabilidades das plataformas ou as dimensões sistêmicas.
Não discute as implicações mais amplas da IA no mercado de trabalho ou na sociedade, como outros blocos fazem.
Os jovens dos Emirados Árabes Unidos não temem a IA, mas a usam para se adaptar e construir carreiras de sucesso.
Enfatiza a agilidade e adaptabilidade dos jovens, apresentando a IA como uma oportunidade em vez de uma ameaça, e cita o WEF para legitimar a narrativa.
Não aborda os riscos de perda de habilidades ou desemprego, nem as críticas filosóficas presentes em outros blocos.
A IA está transformando a comunicação e requer análise sistêmica, não slogans.
Adota um tom equilibrado, citando especialistas e instituições (AGCOM) para se posicionar como uma voz autoritária e moderada, evitando extremos.
Não assume uma posição clara a favor ou contra, mas apenas clama por conscientização, omitindo tanto as críticas radicais quanto o otimismo acrítico.
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