
Vučić renuncia e convoca eleições antecipadas na Sérvia após ano e meio de protestos
Presidente prepara transição para cargo de primeiro-ministro, mantendo influência, enquanto oposição exige reformas estruturais e responsabilização por tragédia.
O presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, anunciou no sábado que deixará o cargo nas próximas semanas e convocará eleições parlamentares e presidenciais antecipadas, previstas para dentro de três a quatro meses. A decisão, comunicada durante um comício do Partido Progressista Sérvio (SNS) que reuniu mais de 200 mil pessoas em Belgrado, surge após 18 meses de protestos estudantis — os maiores desde a queda de Slobodan Milošević — desencadeados pelo desabamento da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, que matou 16 pessoas e expôs suspeitas de corrupção em contratos públicos. Vučić, que não pode concorrer a um terceiro mandato presidencial, admitiu a possibilidade de regressar ao cargo de primeiro-ministro, que ocupou entre 2014 e 2017, caso o seu partido o solicite.
Para o movimento de protesto e a oposição, o anúncio não responde às exigências de fundo. Na perspetiva dos manifestantes, o problema não se limita à Presidência, mas a um sistema político que concentrou poder durante mais de uma década em torno do líder do SNS. Exigem-se responsabilidades pela tragédia, reformas judiciais e o fim da impunidade. A convocação de eleições antecipadas é vista com ceticismo: desde que assumiu o poder há 14 anos, Vučić recorreu repetidamente a este mecanismo — cinco das sete eleições legislativas sob a sua liderança foram antecipadas — para renovar a legitimidade e reforçar o controlo do cenário político. As manifestações continuam, indicando que a oposição encara a manobra como uma tática de sobrevivência política, e não como uma cedência.
A nível internacional, as leituras divergem. Em Bruxelas, segundo analistas, a figura de Ana Brnabić, atual presidente do Parlamento e antiga primeira-ministra, é considerada a mais confortável para dar continuidade às negociações de adesão à União Europeia, dada a sua experiência e pragmatismo. Já Moscovo, de acordo com observadores, privilegia a fórmula “Vučić primeiro-ministro, presidente leal”, que permitiria a Belgrado manter o equilíbrio habitual entre o Ocidente e a Rússia. O próprio Vučić acusou a UE de instigar os protestos para forçar a Sérvia a alinhar a sua política externa com Bruxelas, nomeadamente no que toca às relações com Moscovo e Pequim.
A arquitetura constitucional sérvia atribui ao primeiro-ministro poderes executivos mais amplos do que ao presidente, o que torna a eventual troca de cargos uma via para Vučić conservar influência decisiva, à semelhança de manobras observadas noutros sistemas personalistas. Contudo, a ausência de um sucessor com peso político autónomo é apontada por analistas da região como o principal desafio. Vučić admitiu estar a “testar” dois ou três candidatos, entre os quais se destacam Brnabić, o ministro das Finanças Siniša Mali e o atual primeiro-ministro Đuro Macut, mas nenhum reúne até agora uma base de apoio comparável. O presidente afirmou que a decisão sobre a sua candidatura a primeiro-ministro será transparente e conhecida até ao final de julho. As eleições deverão realizar-se no outono, num contexto de profunda divisão social e de pressão externa, enquanto o SNS se prepara para uma campanha que terá Vučić como cabeça de lista, independentemente do cargo que venha a ocupar.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Após meses de suspense habilmente mantido, Vučić anunciou sua renúncia e eleições antecipadas diante de uma multidão imensa, organizada de cima. O movimento é visto como um recálculo tático para manter o controle, provavelmente assumindo o cargo de primeiro-ministro, sem uma verdadeira abdicação do poder.
O anúncio de Vučić é um recuo estratégico, não uma rendição: o homem forte que já foi ministro da propaganda de Milošević agora encena um passo atrás para permanecer no poder como primeiro-ministro, imitando Putin e Erdoğan. Sua promessa pró-europeia mostrou-se vazia, enquanto as ruas exigem uma rutura sistémica que este jogo de cadeiras não pode assegurar.
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