
Venezuela sob tutela dos EUA: discurso oficial de êxito contrasta com inflação de 524% e queda de popularidade
Seis meses após a captura de Nicolás Maduro, a presidente interina Delcy Rodríguez fala em 'caminho correto', mas cidadãos não sentem melhoria e a aprovação do governo caiu para 25%.
Quase seis meses depois de forças militares dos Estados Unidos terem capturado o presidente Nicolás Maduro e a deputada Cilia Flores numa operação que deixou mais de uma centena de mortos em Caracas e outras três cidades, a Venezuela vive uma dissonância entre a narrativa oficial de recuperação e a realidade quotidiana da população. A presidente interina, Delcy Rodríguez, afirmou num ato comemorativo do Bicentenário do Congresso Anfictiónico do Panamá que o país tomou o “caminho correto” ao privilegiar a via diplomática para dirimir controvérsias com Washington e garantir a paz. No entanto, a inflação anual mantém-se como a mais elevada do mundo, nos 524%, os salários continuam em níveis de miséria e o bolívar prossegue em queda livre, com uma diferença de 25% entre a taxa de câmbio oficial e a praticada nas casas de câmbio informais, o que alimenta a fuga de capitais.
A administração de Donald Trump apresenta a aliança improvável com o novo governo como um êxito retumbante. O presidente norte-americano declarou que a Venezuela “se tornou um país feliz” graças às receitas do comércio reativado com os EUA e que o país “nunca ganhou tanto dinheiro”. Na perspetiva de Washington, a prioridade é assegurar o fornecimento de petróleo venezuelano e estabilizar a economia para, numa terceira fase, criar condições para eleições. O secretário de Estado, Marco Rubio, delineou um roteiro em três etapas — estabilização, recuperação e transição — e confiou a primeira ao próprio chavismo, que mantém o controlo das Forças Armadas, dos organismos de segurança e do sistema judicial. Em Caracas, a oposição democrática vê-se de mãos atadas por Washington, frustrada com o adiamento da transição para a democracia e com o facto de as receitas petrolíferas serem administradas diretamente por autoridades norte-americanas, concentrando o fluxo de dólares num grupo restrito de empresas e empresários com contas nos EUA.
A supervisão económica imposta por Washington começou a enfrentar os piores focos de corrupção crónica herdados do mandato de Maduro, mas ainda não se traduziu em melhorias para o cidadão comum. “Que venham para cá três meses sem guarda-costas e depois vão a um supermercado ver se a situação melhorou”, disse Álvaro Espinoza, joalheiro de Los Teques, nos arredores de Caracas, resumindo um sentimento de frustração que se reflete nas sondagens: a aprovação de Delcy Rodríguez caiu para 25% em maio, a terceira queda mensal consecutiva, segundo a empresa brasileira AtlasIntel. Em Brasília, o Itamaraty acompanha com cautela a influência direta de Washington sobre um vizinho estratégico, enquanto em Lisboa a numerosa comunidade de origem portuguesa na Venezuela — estimada em centenas de milhares de pessoas — observa com apreensão a deterioração das condições de vida e a incerteza política.
A intervenção de 3 de janeiro ocorreu após mais de uma década de sanções económicas dos EUA dirigidas aos setores energético e financeiro venezuelanos, que agravaram a recessão prolongada. Agora, a cooperação entre os dois governos levou ao alívio de sanções e a uma ligeira recuperação da produção petrolífera, mas a terceira fase do plano — a transição democrática — permanece sem calendário definido. O Departamento de Estado afirma que a inflação mensal de maio registou o valor mais baixo desde 2024 e que a riqueza do país começa a beneficiar o povo, embora reconheça que “ainda há muito a fazer”. A próxima etapa concreta será a eventual convocação de eleições, mas, por enquanto, a prioridade declarada de Washington continua a ser a estabilização económica e a garantia do fluxo de petróleo para os seus interesses geoestratégicos.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Após a captura de Maduro, a Venezuela tomou o caminho certo. A diplomacia permitiu resolver as controvérsias internacionais e consolidar a estabilidade interna. Os seis meses decorridos marcam uma virada positiva na política nacional.
Os Estados Unidos exercem um controle de ferro sobre a transição venezuelana, ignorando a diplomacia e impondo uma tutela humilhante. Apesar das proclamações de Trump sobre um país feliz, o descontentamento popular cresce porque as receitas do petróleo não chegam às pessoas comuns.
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