
Trump e Irão divergem sobre inspeções nucleares, expondo fragilidade do acordo preliminar
Enquanto o presidente dos EUA afirma que Teerão aceitou acesso ilimitado de inspetores da AIEA, autoridades iranianas negam qualquer compromisso, revelando a incerteza que cerca as negociações de paz em curso.
A afirmação do presidente norte-americano, Donald Trump, de que o Irão concordou com inspeções nucleares “do mais alto nível” por tempo indeterminado — “infinito”, nas suas palavras — foi categoricamente desmentida por Teerão esta terça-feira, expondo a fragilidade do entendimento preliminar alcançado entre os dois países. Trump escreveu na rede Truth Social que o Irão “aceitou plena e completamente” o regresso dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), condição que, segundo Washington, era indispensável para a continuação das negociações. Horas antes, o porta-voz da diplomacia iraniana, Esmail Baghaei, afirmara que “não há qualquer plano” para que a AIEA inspecione as instalações nucleares danificadas pelos bombardeamentos norte-americanos e israelitas de 2025, e que o programa nuclear não foi discutido nas conversações técnicas na Suíça.
A divergência estende-se a outros pontos sensíveis do memorando de entendimento assinado na semana passada. Na perspetiva de Washington, o vice-presidente JD Vance assegurou que os inspetores da AIEA seriam convidados a regressar ainda esta semana, e Trump condicionou qualquer alívio de sanções à aceitação de um mecanismo de verificação “que garanta a honestidade nuclear”. Já Teerão, por intermédio do seu embaixador junto da ONU em Genebra, Ali Bahreini, sublinhou que o acesso de inspetores se rege exclusivamente pelos procedimentos vigentes do Tratado de Não Proliferação Nuclear e pelas decisões do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, sem novos compromissos. Quanto aos fundos iranianos descongelados — cerca de 12 mil milhões de dólares —, Washington insiste que serão depositados numa conta sob controlo norte-americano e utilizados apenas para a compra de alimentos e medicamentos produzidos nos EUA, enquanto Teerão afirma que será o único a decidir sobre a utilização desses ativos.
No terreno, registam-se movimentos que apontam para uma desescalada gradual. O estreito de Ormuz, via estratégica para o trânsito de petróleo e gás, permanece aberto ao tráfego comercial, com a passagem de 19 milhões de barris de crude num só dia — um volume recorde, segundo a Casa Branca —, o que contribuiu para a queda dos preços internacionais. A Organização Marítima Internacional (OMI) anunciou o início de uma operação de evacuação de cerca de 11 mil tripulantes retidos em navios no Golfo, em coordenação com o Irão, Omã, outros Estados ribeirinhos e os EUA. A presença naval norte-americana, contudo, mantém-se na região, e Washington reserva-se o direito de reimpor o bloqueio caso as circunstâncias o exijam.
As negociações técnicas, mediadas pelo Catar e pelo Paquistão, decorrem no resort suíço de Buergenstock no quadro de um roteiro de 60 dias acordado para tentar alcançar um acordo definitivo. Este processo sucede a mais de três meses de guerra, desencadeada em fevereiro por ofensivas de Israel e dos EUA contra o Irão, e ocorre num contexto em que o Organismo Internacional de Energia Atómica não confirma qualquer novo protocolo de inspeção. Observadores em Lisboa e Brasília notam que a troca pública de versões contraditórias sobre um ponto central como a verificação nuclear revela a distância que ainda separa as partes, apesar dos “avanços alentadores” proclamados pelos mediadores. Os próximos passos incluem a formação de grupos de trabalho sobre o programa nuclear e o alívio de sanções, mas a ausência de um entendimento claro sobre as inspeções ameaça a estabilidade do frágil cessar-fogo.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Em meio às conversas técnicas em andamento, o presidente americano expressou otimismo sobre a proximidade de um acordo justo com o Irã, descrevendo as relações como positivas. Embora reconheça divergências sobre inspeções e alívio de sanções, a narrativa enfatiza um novo degelo e o potencial de um acordo final para encerrar o conflito.
O Irã rejeitou firmemente a afirmação do presidente Trump de que concordou com inspeções nucleares abrangentes, criando um novo ponto de tensão nas frágeis negociações. As mensagens contraditórias lançam dúvidas sobre a solidez do acordo preliminar e levantam preocupações sobre o futuro das conversas.
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