
Trump agita hipótese militar e Cuba responde com reformas de mercado
Presidente dos EUA diz que ação contra ilha é "possível", enquanto Havana aprova maior abertura econômica desde 1959 sob cerco energético sem precedentes.
A declaração do presidente norte-americano Donald Trump de que uma operação militar contra Cuba é "possível, possivelmente", formulada em entrevista ao Axios, reacendeu a tensão nas relações bilaterais e coincidiu com a aprovação, pelo parlamento cubano, do mais amplo pacote de reformas económicas desde a revolução de 1959. Trump citou a proximidade geográfica da ilha — "a um passo" da Florida — e comparou-a à Venezuela e ao Irão, enquanto o seu secretário de Estado, Marco Rubio, é apontado como peça central na pressão sobre Havana. A ameaça ocorre num quadro de asfixia energética: desde janeiro, os EUA reforçaram sanções que praticamente bloqueiam a importação de petróleo por Cuba, levando a apagões de até 72 horas contínuas e a uma contração económica estimada em 6,5% este ano.
Na perspetiva de Washington, a Casa Branca recorre a um "plano de asfixia económica", segundo denunciou o chanceler cubano Bruno Rodríguez, que inclui sanções à petrolífera estatal CUPET, tarifas sobre países que forneçam crude à ilha e pressão sobre parceiros internacionais para que suspendam investimentos nos setores mineiro, hoteleiro e de cooperação médica. A administração Trump justifica as medidas com a invocação de "ameaça à segurança nacional" e, por meio do secretário da Defesa Pete Hegseth, advertiu Cuba contra a procura de mísseis, sob risco de "confrontação que não poderia suportar". Em Havana, o governo de Miguel Díaz-Canel simultaneamente anuncia um pacote de reformas que abre o setor imobiliário e a banca ao capital privado, permite a venda de participações em empresas estatais a investidores estrangeiros e elimina tetos para o emprego no setor privado — medidas que, segundo o discurso oficial, visam "produzir riqueza para garantir justiça social", mas que analistas na região caribenha leem como uma tentativa de reproduzir o modelo de "capitalismo sem democracia" de China e Vietname.
Observadores em Brasília e Lisboa notam que as transformações em curso podem redesenhar as alianças hemisféricas. O governo brasileiro, que historicamente condena o embargo na ONU, vê com preocupação o efeito da crise cubana sobre a estabilidade regional e os fluxos migratórios, mas tem limitada margem de manobra perante a escalada norte-americana. No Caribe, a pressão dos EUA já levou países como Honduras, Jamaica, Granada e Antígua e Barbuda a romperem ou renegociarem programas de cooperação médica com Havana, fragilizando sistemas de saúde pública apoiados por profissionais cubanos. Em África lusófona, onde a cooperação cubana também deixou marcas na formação de quadros de saúde, diplomatas acompanham com atenção a eventual extensão das sanções, embora os fluxos comerciais diretos sejam diminutos.
A conjuntura atual conjuga uma crise energética que o governo cubano admite não decorrer apenas do bloqueio — Díaz-Canel referiu "obstáculos que não vêm de fora, nem do bloqueio" e criticou a "lentidão, a burocracia e as normas que travam quem quer produzir" — com uma pressão externa que transformou a retórica militar numa peça de negociação. O parlamento aprovou as reformas por unanimidade, mas a história cubana regista promessas semelhantes travadas pela resistência interna, e analistas em Washington avaliam que a concretização das medidas enfrentará forte oposição de setores que temem perder o controlo político. Não há, até ao momento, um calendário preciso para a implementação, e o governo de Havana insiste que "não está a renunciar ao socialismo", enquanto os EUA mantêm a opção militar como instrumento de pressão, sem indicação de ação iminente.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Os Estados Unidos estão intensificando sua asfixia econômica e flirtam abertamente com uma ação militar contra Cuba. Em resposta, Cuba adota com relutância reformas orientadas para o mercado, mas a narrativa enfatiza a pressão externa coercitiva e retrata a ilha como vítima da agressão imperial.
Cuba está embarcando na sua abertura econômica mais significativa desde a revolução, impulsionada pela necessidade interna de salvar o sistema. A decisão é enquadrada como um ponto de virada histórico, ecoando momentos passados de mudança, com pouca referência direta à pressão dos EUA.
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