
Tesouro dos EUA supervisionará uso de ativos iranianos; Teerão rejeita condicionantes
Secretário do Tesouro Scott Bessent afirmou que os fundos descongelados serão usados para comprar alimentos e medicamentos americanos, mas o Irão insiste que as aquisições obedecerão apenas a critérios de preço e qualidade.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, anunciou na quarta-feira que a sua pasta supervisionará a utilização dos ativos iranianos descongelados no âmbito do acordo temporário entre Washington e Teerão. Em entrevista à CNBC, Bessent precisou que uma 'percentagem muito grande' desses recursos será destinada à compra de alimentos e medicamentos nos EUA, e que a supervisão ocorrerá a partir de Doha, no Qatar. O presidente Donald Trump reforçou a mensagem na rede Truth Social, especificando que o dinheiro — 'completamente sob nosso controlo' — servirá para adquirir milho, trigo, soja e outros produtos de agricultores e pecuaristas americanos. A administração sublinha que não se trata de uma transferência de fundos do contribuinte norte-americano, mas sim da libertação condicionada de ativos do próprio Irão, congelados no estrangeiro.
A narrativa oficial iraniana diverge frontalmente. O presidente do Banco Central do Irão, Abdolnaser Hemmati, declarou que 'não existe qualquer obrigação de comprar insumos agrícolas aos EUA', e que as aquisições serão determinadas exclusivamente por critérios de preço e qualidade. Também o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Kazem Gharibabadi, e o porta-voz da diplomacia iraniana, Esmail Baghaei, rejeitaram a ideia de que Washington ou os seus aliados possam ditar a forma como Teerão gasta os seus próprios fundos. Esta divergência de interpretações expõe a tensão central do memorando de entendimento assinado pelos presidentes Trump e Masoud Pezeshkian: os EUA procuram construir um mecanismo de controlo que garanta que o dinheiro não seja desviado para fins militares ou de proliferação nuclear, enquanto o Irão insiste na sua soberania sobre as decisões de compra.
A escolha dos produtos agrícolas — milho, trigo e soja — não é neutra. Na perspetiva de observadores em Brasília, a eventual canalização de fundos iranianos para o mercado norte-americano pode afetar os fluxos comerciais globais de grãos, num momento em que o Brasil disputa com os EUA a liderança nas exportações de soja. O setor agrícola dos EUA enfrenta uma redução do rendimento real, concorrência acrescida da Argentina e do Brasil, e uma dependência crescente de subsídios governamentais, que em 2026 deverão representar cerca de 29% do rendimento líquido do setor. Para a administração Trump, a operação oferece uma dupla vantagem: responde às necessidades alimentares de uma população iraniana sob pressão e, simultaneamente, cria um mercado cativo para os agricultores americanos, muitos deles localizados em estados politicamente decisivos. Críticos republicanos no Congresso, contudo, consideram que a Casa Branca cedeu demasiado ao permitir o acesso a ativos congelados em troca de um período negocial de apenas 60 dias.
O dossier permanece em aberto. Bessent não especificou o montante exato a libertar, a entidade que controlará as contas no Qatar, nem os instrumentos de que o Tesouro dispõe para impedir desvios. Paralelamente, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, Rafael Grossi, confirmou que os inspetores visitarão as instalações nucleares iranianas conforme o acordado, mas Teerão condiciona essas inspeções à conclusão de um acordo final e ao levantamento total das sanções. As negociações prosseguem na Suíça, com a primeira libertação de fundos prevista a partir do Qatar, sob supervisão de funcionários do Tesouro norte-americano destacados em Doha.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O Tesouro dos EUA supervisionará os ativos iranianos descongelados, assegurando que sejam gastos em alimentos e medicamentos americanos. Autoridades apresentam isso como um gesto humanitário que também abre um mercado garantido para os agricultores americanos. Algumas vozes questionam se o acordo atende mais aos interesses econômicos dos EUA do que às necessidades da população iraniana.
Washington afirma que monitorará o uso dos fundos iranianos liberados, com supervisão a partir de Doha. O dinheiro deve ser usado para comprar alimentos e produtos farmacêuticos americanos.
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