
Sob o estandarte de San Fermín, Pamplona vive entre a devoção, o turismo e a controvérsia
A abertura dos Sanfermines em 2026 foi marcada por um cartaz contra Israel, feridos na corrida de touros e a sombra de Hemingway, enquanto a festa movimenta 260 milhões de euros.
O foguete ainda ecoava nas varandas da Praça Consistorial quando, entre a multidão de lenços vermelhos, um estandarte se desfraldou com a inscrição “Destroy Israel” e a bandeira israelita riscada. A sigla Ehks, ligada à esquerda radical basca, aparecia no canto. O vídeo correu nas redes sociais e, em poucas horas, a encarregada de negócios de Israel em Madrid, Dana Erlich, denunciava uma “onda de antissemitismo em Espanha”, citando outros episódios na Feira do Livro de Santander e em Barcelona. O Congresso Judaico Europeu condenou a retórica que “promove o ódio e normaliza o antissemitismo”, enquanto a Federação das Comunidades Judaicas de Espanha sublinhava que pedir a destruição de um país “não é crítica política, é incitamento à violência”. O episódio inscreveu-se de imediato na longa história de um festival que há muito deixou de ser apenas uma romaria local.
A figura que dá nome à festa, San Fermín de Amiens, foi bispo e mártir do século III, decapitado numa cela por se recusar a sacrificar aos deuses pagãos. A sua devoção enraizou-se em Navarra, mas o que hoje atrai 1,6 milhões de participantes a Pamplona é um fenómeno cultural e turístico que o escritor Ernest Hemingway ajudou a globalizar. Em 1926, o romance “Fiesta” imortalizou os encierros — a corrida matinal de touros pelas ruas estreitas — e fixou no imaginário internacional a imagem de uma geração perdida entre o álcool, o perigo e a festa. Quase um século depois, os norte-americanos são o segundo grupo estrangeiro mais numeroso (17,8%), atrás dos franceses (27,1%), e 600 jornalistas de 13 países cobrem o evento.
A dimensão económica acompanha a projeção mediática. Um estudo do Bankinter citado pela imprensa espanhola estima que os Sanfermines geram um impacto de 259,4 milhões de euros. No ano passado, o visitante médio gastou 412,2 euros e ficou 3,27 dias; os residentes, porém, gastaram mais (511,6 euros) e prolongaram a estadia para 6,41 dias. A hotelaria esgota, mas 29,7% dos forasteiros dormem em casas de familiares ou amigos. O transporte público domina as deslocações (41,8%), num centro histórico onde o carro se torna inútil. Apesar dos números expressivos, a festa fica atrás do Orgulho LGTBI de Madrid, que movimenta cerca de 600 milhões de euros.
A edição de 2026 reafirmou a tensão entre tradição e risco. Na corrida inaugural, cinco pessoas sofreram contusões e três foram hospitalizadas — um norte-americano e dois espanhóis. Os touros, entre 570 e 610 quilos, percorreram os 850 metros do percurso em dois minutos e 16 segundos, 20 segundos mais rápido do que no ano anterior, segundo a televisão pública espanhola. A velocidade e as quedas no empedrado são parte do ritual que todos os anos reacende o debate sobre o bem-estar animal e a segurança dos corredores. A crítica, vinda sobretudo do exterior, não parece abalar uma prática que Hemingway descreveu como “um rio humano de pessoas que corriam como endemoninhadas, perseguidas por animais enormes”.
Enquanto o estandarte polémico era recolhido e os primeiros feridos recebiam assistência, os sinos da Catedral de Pamplona lembravam que a data também é dia de outros santos — Santa Edda, São Cláudio, a beata nicaraguense Maria Romero Meneses. Mas é sob o nome de Fermín que a cidade se transforma num palco onde o sagrado, o profano e o político se cruzam. No final da manhã, os mesmos touros que galoparam pelas ruas aguardavam na praça de touros o seu destino na arena, enquanto milhares de lenços vermelhos continuavam a ondular, indiferentes às polémicas, sob um céu de julho que já não pertence apenas a Navarra.
| Imprensa latino-americana | 0.00 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa europeia continental | −0.60 | critical |
| Imprensa do Golfo árabe | +0.50 | aligned |
San Fermín é um santo, uma festa e um negócio: 260 milhões de euros e um patrimônio cultural que une fé e tradição.
Equilibra aspectos positivos (economia, religião) com negativos (feridos) para apresentar um quadro completo e objetivo.
A faixa anti-Israel e a controvérsia diplomática não são mencionadas.
A festa de San Fermín foi manchada por uma faixa antissemita pedindo a destruição de Israel: um ato vergonhoso que exige condenação imediata.
Enfatiza o elemento de protesto político para transformar uma festa popular em um caso de antissemitismo, usando a reação diplomática israelense como autoridade.
O impacto econômico de 260 milhões de euros e o significado religioso da festa não são mencionados.
A corrida de touros de San Fermín é uma experiência de tirar o fôlego para milhares de aventureiros, um evento que combina tradição e adrenalina.
Seleciona apenas o aspecto espetacular e positivo, omitindo deliberadamente as controvérsias para manter uma imagem atraente do evento.
As lesões de cinco pessoas e a faixa de protesto anti-Israel não são mencionadas.
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