
Pipoca gourmet e berinjela em massa folhada: a cozinha caseira que une a América Latina
De norte a sul do continente, receitas simples e partilhas televisivas revelam uma tendência de criatividade doméstica que combina tradição, saúde e tecnologia.
No estúdio do programa Melhor da Tarde, em 2024, os chefs Elizabeth Cunha e Carlos Cunha sacudiram um pote com vigor. Dentro, pipocas recém-estouradas dançavam entre o chocolate branco derretido e uma nuvem de leite em pó, transformando um simples petisco de cinema em sobremesa de festa. A cena, transmitida para milhões de lares brasileiros, encapsulou um movimento que percorre as cozinhas latino-americanas: a busca por receitas práticas, mas com um toque de indulgência, capazes de elevar o cotidiano sem exigir técnicas profissionais.
Na Argentina, o chef espanhol Jordi Cruz apresentou uma versão da clássica parmigiana de berinjela que troca a montagem tradicional por uma base de massa folhada, coberta com molho de tomate e queijos. A receita, divulgada pela Rádio Mitre, promete uma preparação mais simples e versátil, que pode ser servida quente ou fria. Já a cozinheira Paula Estela, no mesmo veículo, propôs uma “picada doce” com brownies, alfajores de membrillo e barritas de doce de leite, pensada para substituir os salgados nas reuniões de fim de tarde. Do outro lado da Cordilheira, a sugestão de gajos de mandarina banhados em chocolate amargo e decorados com amêndoas e arandos secos reforça a ideia de sobremesas rápidas e com apelo visual.
Observadores em São Paulo notam que a popularização de eletrodomésticos como a airfryer e a panela de pressão elétrica impulsionou essa tendência. A receita de churros na fritadeira de ar, publicada na Argentina, reduz drasticamente a quantidade de óleo, enquanto os fríjoles caseros na panela de pressão, ensinados pelo jornal colombiano El Espectador, encurtam o tempo de cozimento sem abrir mão do sabor do hogao caseiro. Em comum, essas preparações oferecem um caminho para uma alimentação percebida como mais saudável, sem renunciar ao prazer. A hamburguesa de grão-de-bico feita na frigideira, compartilhada pelo diário argentino Los Andes, é outro exemplo: rica em proteínas vegetais e fibras, fica pronta em poucos minutos e dispensa o forno.
A circulação dessas receitas não respeita fronteiras. O passo a passo das garrapiñadas argentinas — amendoins caramelizados com açúcar e água — ecoa os doces de rua vendidos em feiras mexicanas e brasileiras. A hamburguesa de pollo crispy, publicada no mexicano Excelsior, encontra paralelos nos sanduíches de frango empanado que ganharam as lanchonetes de Bogotá e Lima. Para analistas gastronômicos em Buenos Aires, essa partilha reflete uma identidade culinária regional que se fortalece na simplicidade dos ingredientes e na memória afetiva dos sabores caseiros, agora amplificada pelas redes sociais e programas de televisão.
Ao final do programa, as pipocas com leite em pó repousavam em uma travessa, prontas para serem servidas. O contraste entre o branco do leite e o brilho do caramelo resumia a promessa dessas receitas: transformar o ordinário em extraordinário, com um gesto simples e um punhado de criatividade.
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