
Ofensiva ucraniana contra Wildberries paralisa logística e expõe fragilidade do maior e-commerce russo
Uma semana de ataques com drones destruiu 10% da capacidade logística da plataforma, matou civis e colocou em xeque a resiliência do setor de comércio eletrónico russo.
Na última semana, uma vaga de ataques com drones ucranianos atingiu pelo menos nove centros de distribuição do retalhista online Wildberries em território russo, incluindo instalações nas regiões de Moscovo, Tambov, Krasnodar, Stavropol, Voronej, São Petersburgo e Crimeia anexada. Os bombardeamentos, que se iniciaram a 18 de julho, provocaram a morte de pelo menos nove pessoas e dezenas de feridos, segundo as autoridades locais. A empresa, conhecida como a 'Amazon russa' e responsável por cerca de 10% do volume de negócios do comércio retalhista do país, estimou que cerca de 10% da sua capacidade logística foi destruída, enquanto o valor das mercadorias perdidas poderá ascender a centenas de milhares de milhões de rublos. Em resposta, a Wildberries ativou um pacote de apoio aos vendedores, incluindo a suspensão do reembolso de empréstimos para pequenas e médias empresas e o pagamento de indemnizações, embora alguns comerciantes tenham considerado os montantes insuficientes.
Segundo fontes de Kiev, os ataques visam alvos militares legítimos, uma vez que os armazéns da Wildberries seriam utilizados para armazenar componentes de drones e outro equipamento essencial para as forças armadas russas. O Presidente Volodymyr Zelensky defendeu publicamente as operações, afirmando que as instalações eram 'importantes para a máquina militar russa'. Oficialmente, a Ucrânia também enquadra a ofensiva como retaliação pelos repetidos bombardeamentos russos contra terminais da Nova Poshta, a maior empresa privada de entregas expresso do país. Paralelamente, analistas em Bruxelas e Washington interpretam a mudança de foco — antes centrado em refinarias de petróleo — como uma tentativa de 'trazer a guerra para casa', minando a perceção de normalidade entre a população russa e pressionando a economia do país.
O Kremlin rejeita as alegações ucranianas, classificando os ataques como atos de terrorismo contra alvos civis. O Comité de Investigação russo abriu processos por 'ato terrorista' e as autoridades não prometeram compensações estatais às empresas afetadas. A própria Wildberries, dias antes dos primeiros ataques, alterara os seus contratos com os comerciantes para se eximir de responsabilidade por danos decorrentes de ataques com mísseis ou drones — medida rapidamente adotada pelas concorrentes Ozon e Yandex. A empresária Tatyana Kim, a mulher mais rica da Rússia e proprietária da Wildberries, anunciou apoios financeiros às famílias das vítimas e iniciou uma restruturação da cadeia logística, mobilizando milhares de centros de triagem em todo o país para minimizar atrasos nas entregas.
Na perspetiva de observadores europeus, a campanha contra a Wildberries constitui um novo capítulo na estratégia de desgaste de Kiev, visando agora a espinha dorsal do comércio eletrónico russo, um setor que movimentou mais de seis biliões de rublos em 2025 e emprega dezenas de milhares de pessoas. A destruição de mercadorias pertencentes a centenas de milhares de pequenos vendedores poderá gerar um efeito em cascata sobre a confiança dos consumidores e a estabilidade do setor retalhista, enquanto a capacidade de Moscovo para proteger infraestruturas civis no interior do país é posta em causa. Em Lisboa e Brasília, diplomatas acompanham com preocupação a escalada de ataques a alvos económicos, temendo um alastrar das hostilidades e perturbações nas cadeias de abastecimento globais. A ofensiva não dá sinais de abrandar, e esperam-se novos ataques, enquanto a Wildberries prossegue a avaliação dos prejuízos e a negociação de compensações.
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