
O rato Pérez e o assistente virtual: como a educação se reinventa para a geração da IA
Da Argentina à Indonésia, programas aliam gamificação, inteligência artificial e simulações empresariais para preparar jovens para um mercado de trabalho em rápida mutação.
Victoria, 18 anos, abre o portátil num apartamento de Buenos Aires. No ecrã, um assistente virtual chamado Lucca saúda-a e, ao lado, a figura animada do Ratón Pérez — o rato que recolhe dentes de leite na cultura hispânica — convida-a a explorar um módulo sobre orçamento doméstico. Não é um jogo, mas a fronteira esbate-se: ela avança por cápsulas de microaprendizagem, responde a quizzes e, sem dar por isso, absorve noções de crédito responsável e prevenção de fraudes. O programa “Finanzas a Mano”, reativado pelo Banco Galicia com o aval da Universidade de Buenos Aires, foi desenhado para jovens entre os 16 e os 26 anos e recorre à inteligência artificial e à ludificação para colmatar uma lacuna que os números tornam eloquente.
Na Argentina, 70% dos jovens afirmam não ter conhecimentos para gerir o seu dinheiro e 60% guiam-se por conselhos encontrados nas redes sociais, segundo um diagnóstico da Junior Achievement. Em paralelo, a taxa de incumprimento no crédito a famílias ultrapassou os 10%, com impacto mais acentuado nas faixas etárias mais novas, de acordo com o banco central argentino. A resposta não é isolada. Em Itália, a federação nacional de startups e a organização StartMeUp Aps levam a simulação empresarial às escolas secundárias. O presidente, GianMarco Ingafu’ Del Monaco, sublinha que “não basta ensinar a encontrar trabalho, é preciso preparar para criá-lo”. Os alunos italianos de 15 anos ficaram abaixo da média da OCDE em literacia financeira no PISA 2022, com 18% sem atingir o nível básico. O programa, alinhado com os referenciais europeus EntreComp e DigComp, já envolveu mais de quatro mil estudantes em dois anos, desafiando-os a identificar problemas reais, formar equipas e prototipar soluções.
A urgência ecoa na Ásia. Na Indonésia, a Alta Global School prepara crianças e adolescentes para estudos no estrangeiro e para um futuro moldado pela inteligência artificial. O relatório “Future of Jobs 2025” do Fórum Económico Mundial estima que 86% das empresas serão transformadas pela IA, criando 170 milhões de novos empregos e eliminando 92 milhões. Contudo, no teste de pensamento criativo do PISA 2022, apenas 5% dos alunos indonésios alcançaram os níveis mais elevados, contra 27% da média da OCDE. O fundador da escola, Radyum Ikono, defende que a exposição global e a capacidade de adaptação são tão importantes como o currículo académico: todos os diplomados ingressaram em universidades estrangeiras, 92% com bolsas de estudo. Na América Latina, o Barómetro Cegos 2026 revela que um em cada dez profissionais sente que lhe faltam as competências tecnológicas exigidas pelo trabalho, enquanto 66% dos líderes de recursos humanos apontam a IA como o principal desafio de transformação.
A metamorfose atinge também a liderança. Um estudo do Grupo Adecco em Espanha indica que 55% dos dirigentes empresariais acreditam que a IA melhora a tomada de decisões, mas a tecnologia exige novas aptidões: literacia de dados, empatia, criatividade. Quase quatro em cada dez CEO temem que a sua empresa não sobreviva sem uma adaptação profunda, segundo a PwC. A carreira deixou de ser uma escada para se tornar uma rede de projetos internacionais e aprendizagem contínua. Na América Latina, multinacionais como a ABB montaram plataformas globais que permitem a engenheiros colaborar em tempo real com equipas na Europa sem sair do seu país. É nesse ecossistema que a adolescente argentina que planeia um orçamento com um rato de desenho animado, o estudante italiano que simula uma startup e a criança indonésia que se prepara para uma universidade global convergem, sem o saberem, num mesmo movimento de resposta à incerteza.
Victoria fecha o computador. Concluiu o módulo sobre segurança digital e o ícone do Ratón Pérez pisca um adeus animado. Lá fora, a cidade vibra com a inquietação económica habitual, mas dentro do quarto operou-se um pequeno deslocamento: um orçamento foi esboçado, um risco compreendido. O rato, figura da infância, tornou-se um guia improvável para decisões adultas. Num mundo em que os algoritmos medeiam cada vez mais o trabalho e o dinheiro, estes espaços híbridos — parte sala de aula, parte jogo, parte companheiro de IA — são o território onde a próxima geração ensaia a arte de navegar o que ainda não existe.
| Imprensa latino-americana | −0.20 | neutral |
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| Imprensa europeia continental | 0.00 | neutral |
| Imprensa do Sudeste Asiático | +0.30 | aligned |
Latin America demands that financial education and digital skills become absolute priorities to prepare youth for a digitalized economy.
Uses alarming data on the lack of financial planning to create a sense of urgency and legitimize the call for school reforms.
Does not mention the entrepreneurial approach as an alternative to traditional education, nor concrete examples of schools already implementing solutions.
Europe must move beyond the idea that school only prepares for existing jobs and instead teach how to create new opportunities.
Contrasts the traditional model of 'finding work' with a new paradigm of 'creating work', using the authority of a startup federation to support the change.
Does not address the role of AI or financial digitalization, focusing solely on entrepreneurship.
Skill-based education and global exposure are the key to preparing young people for AI disruption.
Presents a specific school as a successful model, using the language of preparedness and globalization to make the solution plausible.
Does not discuss systemic gaps in public education nor the challenges of equitable access, focusing on a private example.
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