
O papiro de 2.300 anos que viajou do Egito à antestreia de “Odisseia” em Hollywood
Enquanto a adaptação de Christopher Nolan divide opiniões, o mais antigo exemplar do épico grego partilhou os holofotes com estrelas e impulsionou leituras de Homero.
No início de julho, um frágil codex de pergaminho, copiado no Egito ptolomaico por volta do século III a.C., foi colocado com extremo cuidado ao lado de Matt Damon, Anne Hathaway e Tom Holland. Conhecido como a Odisseia de Manchester, o manuscrito — o exemplar mais antigo da epopeia homérica em formato de livro — continha fragmentos dos cantos XII a XV e XVIII a XXIV, incluindo passagens como o encontro com Cila e Caríbdis e o regresso de Telémaco. Marcas de um segundo leitor antigo, que corrigiu erros e acrescentou texto em falta, permaneciam visíveis nas folhas protegidas por lâminas de vidro desde 1900. A sua presença num evento de promoção do filme sublinhou o elo entre a cultura clássica e a indústria global do entretenimento.
A longa-metragem, estreada a 17 de julho (em alguns mercados, como a Indonésia, a 15), arrecadou mais de 320 milhões de dólares em bilheteira mundial na primeira semana, segundo dados de distribuição. Em Los Angeles, Nova Iorque e Londres, membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas assistiram a sessões especiais quase lotadas. Sob anonimato, partilharam reações entusiásticas: um dos presentes afirmou não acreditar que Nolan pudesse superar “Oppenheimer” e considerou-o o “realizador definidor do nosso tempo”; outro chorou duas vezes e previu um Óscar para Matt Damon. A escala do projeto — um orçamento de 250 milhões e um elenco que junta também Zendaya, Robert Pattinson e Charlize Theron — foi descrita como “muito espetacular, talvez um pouco longa, mas com uma escala impressionante”.
Contudo, a adaptação não foi recebida de forma unânime. Na imprensa italiana, críticos como Andrea Spinelli enumeraram momentos que classificaram depreciativamente de “cringe”, desde uma Calipso transformada em terapeuta de praia que ajuda Ulisses a recuperar memórias reprimidas, até uma Atena reduzida a amiga imaginária, armaduras cromadas dos Lestrigões que evocam figurinos de Batman e uma Circe convertida em megera medieval. Em Espanha, o debate centrou-se na fidelidade ao original e na polémica exigência do formato IMAX 70mm, indisponível em muitas salas. A tensão entre a visão autoral de Nolan — com heróis psicologicamente torturados e a desmitificação do sobrenatural — e a textura maravilhosa do poema homérico gerou uma discussão acesa sobre os limites da adaptação.
Paradoxalmente, o filme parece estar a conduzir o público de volta ao texto original. De acordo com a empresa de monitorização Circana BookScan, nos Estados Unidos as vendas de edições impressas da Odisseia dispararam 76% em todas as suas versões após a estreia. Nas plataformas de streaming de áudio, o efeito foi ainda mais acentuado: no Spotify, as escutas de audiolivros da epopeia aumentaram mais de 500% a 17 de julho, dia do lançamento, e o total acumulado de horas de reprodução ultrapassa os 43 anos de escuta contínua em 91 edições e dez línguas. A plataforma destaca que 36% dos ouvintes pertencem à Geração Z e 45% são millennials, com uma maioria de 63% de ouvintes do sexo masculino. “É gratificante ver um clássico amado a encontrar novas audiências”, comentou Lena Yang, editora sénior de audiolivros do Spotify.
Finda a digressão promocional, o papiro da Odisseia de Manchester regressou à sua vitrina na Biblioteca John Rylands, em Manchester, onde equipas de conservação continuam a estudá-lo com técnicas de imagem digital de alta resolução. As mesmas palavras que um escriba anónimo copiou há quase 2.300 anos nas margens do Nilo ecoam hoje em salas IMAX, em auriculares de adolescentes e em debates académicos, confirmando que a viagem de Ulisses não terminou.
| Imprensa europeia continental | −0.20 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.30 | critical |
| Imprensa russa e CEI | +0.80 | aligned |
| Imprensa israelense | +0.10 | neutral |
We continental Europeans greet Nolan's Odyssey with ambivalence: we admire its visual power but doubt its Homeric fidelity. The debate is open, between those who applaud the audacity and those who frown.
Continental European press builds plausibility by alternating criticism and admiration, thus balancing overall judgment. The use of terms like 'cringe' lowers the film's solemnity, while referencing the fidelity debate places it in a cultural frame.
It does not mention the enthusiasm of Oscar voters or the display of the ancient codex, central in other blocs.
We Atlantic observers see Nolan's Odyssey as yet another self-portrait of the director, rather than an adaptation of the Greek epic. We praise the technical mastery but remain skeptical of its ability to capture Homer's spirit.
Atlantic analysis makes its position plausible by interpreting the film as a projection of Nolan's obsessions, using comparisons with his previous works. This shifts the criterion from fidelity to auteurism.
It omits the ancient codex on display and the commercial impact on Homer's book sales.
We Russians celebrate Nolan's Odyssey as an absolute masterpiece, superior to Oppenheimer. Academy members are delighted, and the film is destined to triumph at the Oscars. It is the director's crowning achievement.
Russian press builds plausibility through anonymous testimony from Academy members, creating an effect of truth and consensus. The emphasis on surpassing Oppenheimer establishes a hierarchy of success.
It silences the European criticisms regarding fidelity to Homer and the historical presence of the codex.
We Israelis look at Nolan's Odyssey with historical interest: the ancient codex on display is a bridge between past and present. We focus on the unique piece, not on the film itself.
Israeli press makes its antiquarian perspective plausible by focusing on the material object (the codex) as a bridge between eras, avoiding judgment of the film. This creates a critical distance that appears objective.
It does not report discussions on the film's fidelity or the enthusiasm of Academy members.
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