
Veneza, rock e nostalgia: o passado pop pede bis
Do inédito filme bengali em competição ao documentário do Oasis, o verão de 2026 revela um apetite global por revisitar ídolos e memórias.
Às 15h35 de uma quinta-feira em Daca, o presidente do Festival de Veneza pronunciou o título ‘The Difficult Bride’. Rubaiyat Hossain, a realizadora, esperava em silêncio. O anúncio, relatado pela imprensa bengali, inscreveu o seu filme na secção Orizzonti — a primeira longa-metragem do Bangladesh a competir numa secção oficial do certame mais antigo do mundo. O momento ecoou como um trovão seco: mais de uma década de carreira discreta, três filmes anteriores ignorados pelos holofotes europeus, subitamente reconhecida.
A obra nasceu do luto. Após a morte do pai e uma doença prolongada, Hossain filmou dentro de casa, num gesto de busca pessoal. Apoiada pela Fondazione Prada, a produção enfrentou as resistências que ainda cercam as mulheres cineastas no país. Entretanto, Veneza preparava a sua 83.ª edição (de 2 a 12 de setembro) com um programa que vira costas aos grandes estúdios e aposta no cinema de autor. Danny Boyle, Martin McDonagh, Werner Herzog e Hirokazu Kore-eda disputam o Leão de Ouro. A secção Orizzonti, além do filme bengali, acolhe o iraniano ‘Cautious’, de Mohsen Gharaei; na competição principal, o também iraniano Ali Asgari apresenta ‘A Bit of Light’. Fora de competição, o documentário ‘Don’t Look Back in Anger’ revisita a reunião dos Oasis — com a expectativa de ver os irmãos Gallagher no tapete vermelho.
O rock da banda de Manchester ecoa uma pulsão nostálgica que percorre 2026. Dias antes, Liam Gallagher negara com acidez a hipótese de um novo álbum: ‘Não estou pronto para as críticas se não vender 100 milhões’. Quase em simultâneo, Destiny’s Child anunciava 10 a 15 remisturas inéditas — o primeiro material desde 2004 —, e Louis Tomlinson assinalou os 16 anos dos One Direction com uma mensagem ao antigo companheiro Liam Payne, falecido em 2024: ‘Sinto a tua falta todos os dias’. No México, segundo a imprensa local, Harry Styles aquece a digressão ‘Together, Together’ com canções surpresa e acenos à boyband, num ritual de memória para os fãs latino-americanos.
O gesto de Tomlinson iluminou a devoção dos ‘directioners’, que mantêm viva a chama de uma banda em hiato desde 2016. Em Veneza, apesar da ausência dos grandes estúdios americanos, a chegada de estrelas como George Clooney, Penélope Cruz e Robert Pattinson não esmorece, notou a cobertura brasileira. O júri presidido por Maggie Gyllenhaal entregará Leões de Ouro honorários a Clooney e Ellen Burstyn. No Sul da Ásia, a seleção de Hossain foi celebrada como segundo marco histórico, depois de ‘Rehana Maryam Noor’ em Cannes, reafirmando a vitalidade do cinema bengali. A imprensa iraniana destacou a dupla presença do país, sublinhando o papel do festival como montra para cinematografias não ocidentais.
À beira da lagoa, o título do documentário dos Oasis — ‘Não Olhes para Trás com Raiva’ — ganha uma ironia delicada. O mundo olha para trás com ternura e alguma apreensão, pedindo bis a um passado que insiste em não passar. Entre a tela do Lido e os estádios do México, o que se ouve é o rumor de uma multidão que canta, recorda e, por instantes, suspende o tempo.
| Imprensa latino-americana | +0.20 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa indiana e sul-asiática | +0.70 | aligned |
| Imprensa europeia continental | −0.20 | neutral |
| Imprensa iraniana e afins | +0.10 | neutral |
The Venice festival embraces independent cinema and pop nostalgia, celebrating a cultural moment where audiences seek new voices and comforting memories.
By presenting disparate events (Harry Styles, Oasis, independent cinema) as manifestations of a single cultural trend, the bloc creates an impression of coherence and inevitability.
The focus on industry and nostalgia overlooks specific national representations, such as Iranian and Bengali films.
Bengali cinema makes its historic entry in Venice, proving that local talent deserves a global stage.
By focusing on a single national film and presenting it as a historic first, the discourse transforms a single event into a symbol of national vindication.
The broader festival context and other competing films are omitted to focus on the single national film.
Rumors of new albums are denied, while old hits are revived through remixes: the festival is just a backdrop for music news.
By selecting only the most controversial or nostalgic music news and ignoring the film programming, the focus is shifted from the festival to music.
The festival's film programming is completely absent, replaced by music news.
The Venice film list is complete and includes Iranian works, confirming the festival's role as a global showcase.
The mere enumeration of titles, with special emphasis on Iranian entries, builds an image of participation and international recognition.
The narrative of a paradigm shift towards independent cinema and pop nostalgia, present in other readings, is ignored.
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