
O olhar que se desvia: quando o ecrã dos pais molda o futuro dos filhos
Enquanto governos correm para banir telemóveis nas escolas, a investigação revela que o problema não está apenas no dispositivo que a criança segura, mas também no que distrai o adulto ao seu lado.
Num consultório de psicologia nos Estados Unidos, um pai insistia que estivera presente em todos os ensaios de ballet, em cada treino de softball. A filha adolescente corrigiu-o com uma precisão cirúrgica: “Sim, estavas lá, mas não estavas. Sempre que eu olhava para cima, tu olhavas para baixo, para o teu aparelho.” O episódio, relatado pelo psicólogo Don Grant, condensa um mal-estar que atravessa continentes e gerações, e que as novas vagas de proibições de telemóveis nas escolas apenas começaram a tornar visível.
A pressa legislativa é inegável. Da França ao Brasil, da Dinamarca à Coreia do Sul, as restrições ao uso de smartphones em sala de aula multiplicam-se. A UNESCO contabiliza 114 sistemas de ensino com limitações nacionais. A Austrália foi mais longe e baniu as redes sociais para menores de 16 anos. Na União Europeia, um painel de peritos prepara recomendações que poderão chegar já este verão, enquanto a Comissão Europeia observa com atenção a experiência australiana e admite uma abordagem baseada no risco: proibir funcionalidades consideradas nocivas — o “scroll” infinito, a reprodução automática, as notificações incessantes — em vez de plataformas inteiras. Em Nova Deli, o debate também aquece, com os estados de Karnataka e Andhra Pradesh a anunciarem restrições em março de 2026, embora a Índia invista simultaneamente em iniciativas de aprendizagem digital como o DIKSHA e o SWAYAM, lembrando que, em vastas regiões do Sul Global, o smartphone continua a ser biblioteca, sala de aula e janela de oportunidade.
Contudo, uma corrente de investigação e de opinião pública começa a deslocar o foco do dispositivo para o modelo de negócio que o alimenta. Em Bruxelas, a comissária europeia para a proteção dos consumidores, Michael McGrath, sublinhou que “quaisquer que sejam as decisões sobre limites de idade, temos também de enfrentar os modelos de negócio e as escolhas de design que moldam as experiências online das crianças”. Um inquérito YouGov realizado em cinco países europeus revelou que 75% dos adultos defendem que as plataformas só devem ser acessíveis a menores depois de provarem ser seguras, e uma maioria quer a remoção de funcionalidades de design “prejudiciais”. A ironia, notam analistas, é que as gigantes tecnológicas gastaram milhares de milhões a desenhar aplicações para manter os utilizadores agarrados ao ecrã, enquanto os decisores políticos se concentram sobretudo em restringir os aparelhos que as crianças usam para lhes aceder.
O que torna o retrato mais complexo é a descoberta de que o problema não flui numa só direção. Um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology, baseado em inquéritos a 600 adolescentes norte-americanos, concluiu que os filhos que percecionam os pais como distraídos pelos ecrãs têm maior probabilidade de desenvolver uma “vinculação insegura”, com repercussões na autoconfiança, nas relações futuras e na disponibilidade para correr riscos. A mesma investigação sublinha que pais e filhos avaliam de forma muito diferente o tempo de ecrã dos adultos: quase metade dos adolescentes nos EUA afirma que os pais estão “pelo menos às vezes” distraídos pelo telefone durante as conversas, enquanto muito menos pais reconhecem essa frequência. Em paralelo, um estudo da Inserm e da Universidade Nacional de Singapura, que acompanhou 502 crianças desde o nascimento, associou a exposição excessiva a ecrãs na primeira infância a um declínio do desempenho académico e da memória de trabalho, com o impacto mais acentuado quando o uso intensivo começa antes dos dois anos.
Num laboratório em Roma, uma equipa filmou 79 bebés de três, seis e doze meses enquanto ouviam canções infantis. Os eletroencefalogramas mostraram que, já aos três meses, o cérebro distingue uma melodia original de uma versão aleatória. Mas só aos doze meses o corpo começa a responder de forma diferente, ainda que nenhum bebé tenha verdadeiramente acompanhado a batida. A dança, essa coordenação íntima entre o ouvido e o movimento, chega mais tarde. Talvez seja essa a imagem que fica: um bebé que se agita ao som de uma canção, ainda sem conseguir sincronizar-se, enquanto, do outro lado da sala, um adulto desvia o olhar para um retângulo luminoso, interrompendo a melodia partilhada que a ciência agora confirma ser muito mais antiga do que qualquer algoritmo.
| Imprensa indiana e sul-asiática | −0.30 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.10 | neutral |
| Imprensa africana subsaariana | 0.00 | neutral |
| Imprensa do Sudeste Asiático | −0.30 | critical |
India and South Asia warn: parents' screen addiction harms children, and tech companies must be regulated.
The bloc makes its position plausible by alternating scientific data on psychological effects with examples of global regulation, creating a shared sense of urgency.
Atlantic parents fear AI is stealing their children's attention, but they do not examine their own behavior.
The bloc uses a survey to legitimize parental anxiety, shifting the problem from parents to technology.
The bloc omits the central issue of parental screen distraction, focusing instead on children's AI usage, which shifts responsibility away from parents.
Sub-Saharan Africa looks to Europe: the problem of children on social media must be solved by laws, not individual responsibility.
The bloc adopts the perspective of European institutions, presenting the ban as an inevitable and imminent solution.
The bloc omits the dimension of parental responsibility, focusing exclusively on legal restrictions and EU moves.
Southeast Asia warns: excessive screen time in young children harms learning, but remains silent on the role of parents.
The bloc relies on a Franco-Singaporean scientific study to give authority to its thesis, without mentioning parental distraction.
The bloc omits parental behavior, focusing only on the effect of screens on children, as if the problem were exclusively child-related.
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