
O filho que não chega: entre o desejo e o medo, jovens reescrevem o futuro
Em 73 países, oito em cada dez jovens veem nos filhos a alegria de uma vida plena, mas a maioria adia ou renuncia à parentalidade por falta de casa, rendimento estável e horizontes partilhados.
No apartamento alugado de Ágargaon, em Daca, Imran Hossain folheava contas de médico, embalagens de fraldas e propinas escolares enquanto tentava decidir se teria um segundo filho. “As despesas disparariam, mas o salário não acompanha”, dizia ao Prothom Alo, num cálculo íntimo que ecoa de Teerão a Buenos Aires. A sua hesitação não é exceção: é o retrato de uma geração global que, pela primeira vez, coloca a parentalidade na balança não por falta de vontade, mas por ausência de chão.
O mais vasto inquérito já realizado sobre o futuro demográfico, conduzido pelo UNFPA em 73 países com quase 109 mil pessoas entre os 18 e os 39 anos, revela que dois terços dos jovens permanecem otimistas quanto ao amanhã e mais de dois terços desejam casar-se. Oito em cada dez afirmam que a alegria que uma criança traz ao lar é a razão mais importante para se tornarem pais. Contudo, 88% consideram a segurança financeira um pré-requisito, 87% mencionam o emprego estável e mais de metade apontam a crise da habitação e o custo de vida como barreiras intransponíveis. “Não se trata de uma rejeição da família”, sublinha a demógrafa Letizia Mencarini, da Universidade Bocconi, em Milão. “Os jovens simplesmente não conseguem reunir aquilo que consideram condições mínimas.”
Na América Latina, a transformação é particularmente visível. Um estudo da Universidade Austral, em Buenos Aires, que acompanha há 25 anos os valores familiares na Argentina, detetou que a proporção de quem considera “muito importante” ter e criar filhos caiu de 77% em 2015 para 46% em 2025. Entre os argentinos dos 18 aos 34 anos, apenas 34% partilham dessa convicção. Na Cidade do México, investigadores da UNAM escutam relatos semelhantes: Michelle, mestre em ciências, evoca “a fome, a economia e as alterações climáticas”; Nancy fala do “sofrimento que pode causar a novas vidas”. A crise ambiental e a precariedade laboral já não são pano de fundo — tornaram-se argumentos centrais na decisão de não ter filhos.
A Europa envelhecida observa o mesmo fenómeno com contornos próprios. Em Itália, o Rapporto UNFPA mostra que as jovens mulheres, mais do que os seus parceiros, recusam a maternidade enquanto não alcançam uma posição profissional sólida, temendo que todo o cuidado recaia sobre elas. “Hoje, pobres e ricos fazem mais filhos do que a classe média, que está esmagada”, nota Mencarini. O sistema de saúde e a previdência italianos, concebidos há meio século, já não respondem a uma sociedade onde a esperança de vida aumenta e a natalidade desce para mínimos históricos. Em Portugal e no Brasil, embora fora do inquérito, analistas apontam tendências convergentes: adiamento da fecundidade, envelhecimento acelerado e uma pressão crescente sobre os sistemas de segurança social.
No Sul da Ásia, o Bangladesh vive um sobressalto: depois de décadas a reduzir a taxa de fecundidade, o país registou uma ligeira subida para 2,4 filhos por mulher, segundo o Multiple Indicator Cluster Survey. Especialistas em Daca atribuem o recuo à estagnação dos programas de planeamento familiar, à escassez de contracetivos nos serviços públicos e ao aumento dos casamentos infantis — quase metade das raparigas casa antes dos 18 anos. A Índia, pelo contrário, já desceu abaixo do nível de substituição, com 1,9 filhos por mulher, mas enfrenta o desafio de criar emprego para a maior população jovem do planeta antes que a sua janela demográfica se feche, por volta de 2040. Em Teerão, economistas debatem se o envelhecimento é crise ou oportunidade, à medida que a tecnologia promete conter os custos da longevidade.
No final da tarde em Daca, Imran Hossain guardou as contas na gaveta. A decisão ficou adiada, suspensa entre o desejo de uma mesa mais cheia e o medo de um futuro mais estreito. É nesse intervalo — entre o que se quer e o que se pode — que milhões de jovens reescrevem, sem alarde, o mapa afetivo do mundo.
| Imprensa indiana e sul-asiática | −0.60 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa latino-americana | 0.00 | neutral |
| Imprensa europeia continental | −0.40 | critical |
| Imprensa japonesa-coreana | −0.50 | critical |
O governo de Bangladesh falhou em garantir o planejamento familiar, colocando em risco o futuro do país.
O bloco constrói seu caso destacando estatísticas alarmantes e culpando a negligência governamental, criando um senso de urgência.
O bloco omite a tendência global de declínio da fertilidade e as barreiras econômicas que levam os jovens a adiar a parentalidade, centrais em outros blocos.
A sociedade argentina está evoluindo, e o declínio da fertilidade é um sinal de progresso, não um problema.
O bloco normaliza a tendência ao enquadrá-la como uma consequência natural do desenvolvimento e da escolha pessoal, usando dados culturais de longo prazo para apoiar sua posição.
O bloco omite as pressões econômicas e sociais que levam à falta de filhos, bem como as potenciais consequências negativas do envelhecimento da população, destacadas em outros blocos.
Os jovens europeus estão dispostos a ter filhos, mas a economia está falhando com eles, especialmente a classe média.
O bloco usa uma análise baseada em classes para argumentar que as condições econômicas, não a mudança cultural, são a causa raiz, citando dados de pesquisa sobre aspirações.
O bloco omite a mudança cultural em direção à falta de filhos e os aspectos positivos do declínio da fertilidade, bem como o papel das políticas governamentais no apoio às famílias.
As mulheres japonesas são injustamente julgadas por não terem filhos, mesmo quando a sociedade dificulta a conciliação entre trabalho e família.
O bloco usa narrativas pessoais e projeções para destacar a desconexão entre normas sociais e realidade, evocando simpatia pelas mulheres sem filhos.
O bloco omite as barreiras econômicas e habitacionais enfatizadas em outros blocos, bem como as preocupações demográficas mais amplas do declínio populacional.
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