
Do aroma a gás de campismo ao vinho de altitude: as férias que as famílias realmente podem ter
Entre memórias de infância, burocracias de passaporte e a pressão dos custos, as escolhas de lazer revelam um regresso ao próximo e ao simples.
O cheiro a gás de campismo e a bacon frito, misturado com agulhas de pinheiro, regressa com uma nitidez desarmante. É uma memória de infância de uma jornalista britânica, deitada numa rede sob o teto extensível de uma autocaravana, a ouvir o assobio da chaleira e o ruído dos tupperwares verde-azeitona. Décadas depois, ao volante de uma Volkswagen California Ocean pela costa oeste da Escócia, ela procurava perceber se aquele desconforto adolescente com os duches comunitários podia dar lugar a um reencontro com a liberdade. A resposta veio ao fim do primeiro dia, num parque de campismo em Loch Lomond, quando o sol se pôs atrás das colinas e o pânico de ter ligado a ficha ao contrário se dissolveu em sorrisos cúmplices dos vizinhos de parcela.
Essa viagem íntima ecoa um movimento mais amplo que analistas em Buenos Aires e São Paulo identificam nas escolhas de lazer deste ano. Com as férias escolares de inverno a começarem em julho, as famílias argentinas e brasileiras estão a recalcular rotas. Na perspetiva de consultoras como a Focus Market, citada pela imprensa económica, o consumidor tornou-se “seletivo” e privilegia a relação preço-qualidade, empurrando as reservas para o mercado doméstico e para as compras de última hora. Bariloche continua a ser o destino-estrela, mas uma semana na neve para uma família de quatro pessoas pode custar mais de cinco milhões de pesos argentinos se viajarem de avião, um valor que sobe para mais de sete milhões quando se opta pelo Rio de Janeiro. É neste contexto que ganha força o turismo de cercania: a província de Salta, acessível de autocarro por metade do preço, ou as escapadas rurais a menos de 90 quilómetros da capital argentina, como a República de los Niños em La Plata ou a aldeia medieval reciclada de Campanópolis.
Do lado brasileiro, a cidade de São Paulo responde com uma programação cultural densa e muitas vezes gratuita. A Pinacoteca inaugurou a exposição “Para crianças: experiências com a arte desde 1968”, que transforma o museu num território de brincadeiras e perguntas, enquanto o MASP ocupa o seu Vão Livre com oficinas de pintura e performances musicais. A Prefeitura, através do programa Recreio nas Férias, espera acolher mais de cinquenta mil crianças em 133 polos espalhados pela cidade. Observadores em Lisboa notam que esta oferta de proximidade, ancorada em equipamentos culturais, contrasta com a tradição europeia de grandes deslocações, mas responde a uma mesma necessidade de conciliar orçamento e enriquecimento familiar.
A preparação da viagem, porém, não se esgota na escolha do destino. Em Berlim, os conselhos práticos lembram que o stress pré-partida se aninha nos detalhes: um passaporte com validade inferior a seis meses pode bloquear a entrada em dezenas de países, e o antigo Kinderreisepass alemão deixou de ser emitido, obrigando as famílias a rever a documentação dos filhos. Nos Estados Unidos, a regra é ainda mais rígida: passaportes emitidos há mais de quinze anos não são renováveis, forçando um novo pedido presencial. Estas exigências burocráticas, sublinham analistas em Washington, afetam tanto cidadãos como estrangeiros e introduzem uma camada de incerteza que as listas de verificação — da farmácia de viagem ao estado das vacinas — tentam domar.
No noroeste argentino, a Rota do Vinho de Altura oferece uma experiência que dispensa aviões e vistos. Onze adegas entre Amaicha del Valle e Colalao del Valle, a altitudes que vão dos 1700 aos 3000 metros, recebem visitantes com provas, almoços crioulos e a possibilidade de pernoitar na paisagem calchaquí. Para uma família tucumana, brindar pela primeira vez com um vinho nascido ali, a apenas três horas de casa, condensa o espírito de umas férias que já não se medem em quilómetros percorridos, mas na espessura do que se descobre. Ao cair da noite, o mesmo sol que se põe sobre Loch Lomond desce também sobre os vinhedos de altitude, enquanto uma criança adormece numa autocaravana ou num quarto de hotel com vista para o Cerro Catedral, indiferente às fronteiras que os adultos insistem em traçar.
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