
O passaporte como medida de poder: a nova geografia da mobilidade global
O índice Henley 2026 revela a ascensão dos Emirados Árabes Unidos e a estagnação africana, enquanto a distância entre os mais livres e os mais confinados atinge um recorde.
Na manhã de terça-feira, a consultora Henley & Partners divulgou a edição de julho do seu índice global de passaportes, um retrato minucioso da mobilidade internacional que, há vinte anos, se tornou referência para governos e viajantes. O ranking, baseado em dados da IATA, mostra que um cidadão de Singapura pode entrar em 192 destinos sem visto prévio, enquanto um afegão tem acesso a apenas 22. Entre estes extremos, a média global de destinos acessíveis subiu de 58 para 108 desde 2006, mas a diferença entre o passaporte mais poderoso e o mais fraco nunca foi tão grande: 170 destinos separam o topo da base da tabela.
O grande destaque desta edição é a trajetória dos Emirados Árabes Unidos, que partilha o segundo lugar com o Japão e a Coreia do Sul, garantindo entrada sem visto em 188 países. Observadores em Abu Dhabi sublinham que, há duas décadas, o passaporte emirati permitia viajar para apenas 35 destinos; desde então, foram adicionados 153 novos acordos, a maior subida registada na história do índice. Este salto, atribuído a uma diplomacia ativa e a parcerias estratégicas, transformou o documento de viagem do país num dos mais valiosos do mundo. Na Ásia, Singapura mantém a liderança isolada, enquanto as Filipinas sobem para o 72.º lugar, com 65 destinos, uma recuperação modesta face ao tombo pandémico, mas ainda distante do 62.º posto que ocupavam em 2007. O Bangladesh, por sua vez, estaciona no 97.º lugar, com acesso a apenas 35 países, o mesmo número da Coreia do Norte.
Em contraste, o continente africano continua a ocupar os lugares mais baixos da classificação. A África do Sul mantém-se como o passaporte mais forte da região, em 49.º lugar com acesso a 101 destinos, enquanto a Nigéria desceu para a 90.ª posição, com apenas 44 países acessíveis sem visto. Analistas em Lagos notam que a lista de destinos inclui sobretudo nações da África Ocidental e algumas ilhas do Pacífico, mas exclui grandes economias e rotas estratégicas. A ausência nigeriana do ranking de tráfego aéreo da IATA, divulgado em separado, reforça a perceção de um setor da aviação limitado por custos operacionais elevados e infraestruturas deficientes. Entretanto, o Líbano alargou a sua política de visto à chegada a 13 países africanos, incluindo a Nigéria, exigindo, porém, a apresentação de 2.000 dólares em dinheiro e bilhete de regresso – uma condição que, para muitos, transforma a permissão em barreira.
No mundo lusófono, o retrato é igualmente desigual. Portugal integra o grupo de elite em quinto lugar, com 185 destinos, enquanto o Brasil e a Argentina partilham a 16.ª posição, com acesso a 169 países. Angola, em 86.º lugar, e Moçambique, em 76.º, ilustram a distância que separa as antigas metrópoles das suas ex-colónias. Cabo Verde, em 73.º, e São Tomé e Príncipe, em 77.º, completam o quadro lusófono africano, com acesso a 64 e 59 destinos, respetivamente. Em Brasília, a estabilidade do passaporte brasileiro é vista como um ativo diplomático, mas a diferença para os líderes do ranking evidencia os limites da integração regional. O índice da Henley, ao traduzir em números a liberdade de circulação, desenha um mapa onde a cidadania determina, cada vez mais, o horizonte possível de cada viajante.
| Imprensa do Golfo árabe | +1.00 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.50 | critical |
| Imprensa africana subsaariana | −0.70 | critical |
| Imprensa latino-americana | +0.60 | aligned |
Os Emirados Árabes Unidos celebram seu passaporte como símbolo de diplomacia vencedora e mobilidade global.
O bloco apresenta a ascensão do passaporte como uma conquista linear e estatal, atribuindo o sucesso a relações diplomáticas estratégicas e enquadrando o índice como uma validação do poder nacional.
O bloco omite o contexto mais amplo da desigualdade de mobilidade global, como o declínio do passaporte dos EUA e as baixas classificações de países africanos e sul-asiáticos, destacados em outros blocos.
Os Estados Unidos veem o declínio de seu passaporte como um sintoma de uma posição global em erosão e fraqueza diplomática.
O bloco usa uma narrativa de declínio, contrastando o domínio passado com a mediocridade atual, e enquadra o ranking como uma métrica de influência perdida.
O bloco omite a ascensão histórica dos EAU e as histórias positivas de outros países, focando apenas na queda americana.
A Nigéria e outras nações africanas lamentam as baixas classificações de seus passaportes como evidência de desigualdade global sistêmica e mobilidade limitada.
O bloco usa uma narrativa de vitimização e desvantagem estrutural, focando na lacuna entre passaportes poderosos e fracos e sugerindo injustiça no sistema global.
O bloco omite a história de sucesso dos EAU e o declínio dos EUA, concentrando-se apenas na baixa classificação da Nigéria e na fraqueza africana em geral.
O Chile se orgulha de seu passaporte como o mais forte da América Latina, destacando sua integração internacional e sucesso diplomático.
O bloco usa uma narrativa de liderança regional e realização, enquadrando o ranking como uma validação da abertura e engajamento global do Chile.
O bloco omite a história mais ampla de desigualdade, como as baixas classificações de outros países latino-americanos e o declínio global do passaporte dos EUA, focando apenas no sucesso do Chile.
Amplie o olhar
Mamdani recua e admite que Nova Iorque não pode prender Netanyahu, mas pede ação federal
8 idiomas · 31 veículos
De Economy & MarketsPetróleo Brent supera US$ 90 com escalada de ataques entre EUA e Irã no Estreito de Ormuz
8 idiomas · 21 veículos
De TechnologyModelos de IA da OpenAI escapam a ambiente de teste e atacam plataforma Hugging Face de forma autónoma
8 idiomas · 52 veículos