
A odisseia interrompida: quando a tela congela e o mito escapa
Falhas técnicas em salas suecas, a escassez global de projetores IMAX 70 mm e a promessa de Elon Musk de recriar o épico com inteligência artificial compõem uma narrativa paralela à do filme de Christopher Nolan.
Na noite de uma sessão IMAX em Uppsala, na Suécia, o herói grego Odisseu estava prestes a reencontrar o seu destino quando a imagem congelou. Faltava uma hora para o fim da projeção de “The Odyssey”, e os espectadores foram convidados a deixar a sala sem saber como a história terminava. Dias antes, em Estocolmo, uma falha semelhante interrompera os últimos quinze minutos do épico de Christopher Nolan, deixando o público suspenso entre a ficção e a frustração. A cadeia de cinemas Filmstaden atribuiu os incidentes a causas distintas — um erro técnico já corrigido em Uppsala, uma ventoinha avariada num projetor em Malmö e um problema “de outra natureza” no Mall of Scandinavia —, mas o episódio sublinhou a fragilidade de uma experiência cinematográfica que depende de equipamentos raros e de uma ambição técnica quase mítica.
O filme, que adapta o poema homérico com um orçamento estimado de 250 milhões de dólares, tornou-se de imediato um fenómeno global. Na semana de estreia, arrecadou 264,1 milhões de dólares em todo o mundo, o melhor desempenho de sempre de Nolan, superando “O Cavaleiro das Trevas Renasce”. Filmado integralmente com câmaras IMAX de 70 mm — uma estreia absoluta na história do cinema —, “The Odyssey” só pode ser visto no formato original em 41 salas do planeta, a esmagadora maioria nos Estados Unidos. A raridade gerou uma corrida às pré-vendas e, nas redes sociais, uma vaga de memes que iam de televisores embutidos em frigoríficos a relógios inteligentes, com a legenda irónica “assistindo como Nolan queria”. No Brasil, onde o longa estreou a 16 de julho, a procura por salas IMAX convencionais também foi intensa, ainda que a versão em 70 mm permaneça inacessível.
A grandiosidade técnica não blindou o projeto de controvérsias. A escolha de Lupita Nyong’o para o papel de Helena de Troia e a participação do ator transgénero Elliot Page como o soldado Sinon desencadearam uma ofensiva digital liderada por Elon Musk. O proprietário do X acusou Nolan de “racismo antibranco” e de ter “profanado Homero” para agradar às regras de premiação de Hollywood. A atriz, por sua vez, respondeu que o elenco “representa o mundo” e que não perderia tempo a defender-se. Na Grécia, a receção dividiu-se: enquanto o jornal Kathimerini elogiou a fusão entre o épico clássico e a linguagem cinematográfica moderna, a publicação Athinorama considerou que a adaptação carecia da profundidade filosófica do original. Grupos políticos de direita protestaram contra o que veem como um desvio do legado cultural helénico, mas a ministra da Cultura, Lina Mendoni, recusou intervir na liberdade artística.
Musk, entretanto, anunciou que a sua ferramenta de inteligência artificial, Grok Imagine, produzirá até ao final do ano uma versão “historicamente precisa e fiel à arte de Homero”. A promessa, acompanhada de um vídeo de três minutos gerado por IA com um elenco exclusivamente branco, foi recebida com ceticismo por académicos, que recordam que a “Odisseia” é um poema mitológico, não um registo histórico. O magnata também se mostrou disponível para financiar com 100 milhões de dólares uma adaptação realizada por Mel Gibson, com diálogos em grego homérico. A sobreposição de narrativas — a de Nolan, a de Musk, a dos memes, a das salas avariadas — transformou o regresso de Ulisses a Ítaca numa experiência cultural fragmentada, em que cada espectador parece condenado a uma travessia própria.
Nas salas escuras da Suécia, os espectadores que saíram antes do fim carregam uma versão incompleta do mito. Talvez essa seja a imagem mais fiel da odisseia contemporânea: a de um herói que, mesmo quando a projeção falha, continua a navegar entre o desejo de casa e a incerteza do que realmente acontece depois de a tela se apagar.
| Imprensa europeia continental | −0.20 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa do Golfo árabe | +0.80 | aligned |
| Imprensa latino-americana | −0.10 | neutral |
The journey stops short: despite the financial triumph, technical fragility spoils the experience.
Concrete incidents (the Uppsala cinema, specific failures) are reported and contrasted with box office figures, building a narrative of a flawed success.
Enthusiastic reviews and positive audience reception are absent, as are anecdotes about the cast's dedication.
The Odyssey is a masterpiece dominating the box office and critics, a journey that no technical problem can overshadow.
By exclusively citing the Rotten Tomatoes score and opening weekend data, any criticism or inconvenience is omitted, presenting an unblemished success.
Technical problems in Swedish cinemas and criticisms of the Homeric representation are not mentioned, nor are complaints about the lack of IMAX screens.
The most anticipated film turns into a logistical ordeal: exhausted actors, unusual doubles, and a format inaccessible to most audiences.
By detailing the physical hardships of the cast and the scarcity of IMAX screens, the narrative constructs the film as a flawed spectacle rather than a pure triumph.
Positive reviews and the box office record are relegated to the background, while attention focuses on problematic aspects of production and distribution.
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