
Marrocos e França preparam acordo excecional e ligação elétrica direta
Visita de Estado do rei Mohammed VI a Paris deverá selar nova parceria estratégica, que inclui interconexão energética e reforço da cooperação securitária, num contexto de reconfiguração atlântica.
A preparação de um “acordo excecional” entre Marrocos e França, a ser assinado durante a visita de Estado do rei Mohammed VI a Paris, constitui o facto central da nova fase bilateral. Em paralelo, os dois governos anunciaram o lançamento de um projeto de interconexão elétrica direta através do Mediterrâneo, destinado a exportar eletricidade renovável marroquina para o mercado francês e, a partir daí, para a Europa. A iniciativa, formalizada pelo primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu durante uma reunião de alto nível em Rabat, insere-se num pacote mais amplo de 14 acordos setoriais, com um envelope financeiro estimado em 10 mil milhões de euros, abrangendo também energia nuclear civil, inteligência artificial e cooperação militar.
Na perspetiva de Rabat, a parceria consagra o princípio da “ndiya” (paridade) e do respeito pela soberania nacional, assente no reconhecimento francês do plano de autonomia marroquino para o Saara Ocidental como única solução viável. Analistas marroquinos sublinham que o reatamento da confiança, após anos de tensões, se alicerça na diversificação de parceiros levada a cabo pelo reino — com os Estados Unidos, a China, os países do Golfo e a Espanha — e na capacidade de converter a sua posição geográfica, na interseção do Mediterrâneo e do Atlântico, num ativo estratégico. A “iniciativa atlântica” de integração dos Estados do Sahel, promovida por Marrocos, é vista em Rabat como um fator que reforça a sua relevância para os interesses europeus de segurança energética e marítima.
Fontes diplomáticas europeias indicam que a França procura, através do eixo marroquino, uma via de reequilíbrio da sua presença em África, após a degradação das relações com vários países do Sahel e a contestação a um modelo de influência descrito como “semi-colonial”. A interconexão elétrica responde, segundo observadores em Paris, à necessidade de diversificar as fontes de abastecimento energético da União Europeia, num momento em que o défice comercial da zona euro foi agravado pelo aumento dos custos da energia. O projeto beneficia do rápido crescimento da capacidade renovável marroquina, que passou de 37% para 46% do total instalado entre 2021 e 2025, com a meta de atingir 52% em 2030, e de um quadro regulatório que atraiu mais de 6 mil milhões de dólares em investimentos desde 2021.
A cooperação securitária e judicial constitui outro pilar da nova arquitetura bilateral. Uma operação conjunta recente resultou na detenção de 16 pessoas procuradas por tráfico internacional de droga, homicídio e branqueamento de capitais, ilustrando o grau de coordenação entre as autoridades dos dois países. O ministro da Justiça francês, Gérald Darmanin, elogiou publicamente o papel das forças de segurança marroquinas, enquanto os procedimentos de extradição e partilha de provas decorrem com base nas competências legais de cada Estado. Para observadores em Lisboa e em Brasília, a consolidação do eixo Rabat-Paris no quadro de um “século atlântico” — conceito que desloca o centro de gravidade das relações euromediterrânicas para as fachadas oceânicas — pode ter implicações para a projeção dos interesses lusófonos na África Ocidental, sobretudo no que toca à segurança marítima no Golfo da Guiné e à competição por corredores logísticos.
O dossiê encontra-se em fase de finalização acelerada, com os trabalhos da comissão bilateral de sábios a decorrer em paralelo à preparação da visita real. A assinatura do acordo excecional está prevista para essa deslocação, que a presidência francesa descreve como uma oportunidade para “reavivar o espírito” da declaração de La Celle Saint-Cloud de 1955, que lançou as bases da independência marroquina e da transição de uma relação de tutela para uma cooperação entre Estados soberanos.
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Marrocos e França constroem uma parceria estratégica que supera o passado colonial, redefinindo os equilíbrios mediterrânicos.
Enfatizar a continuidade histórica e a reciprocidade de interesses para legitimar o acordo como uma evolução natural.
Omite as críticas internas francesas à política externa de Macron e a controvérsia do Saara Ocidental.
Macron usa as visitas oficiais para impulsionar a própria imagem, priorizando os holofotes pessoais sobre a substância diplomática.
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