
O feriado que nasceu de uma caminhada e enfrenta agora a sombra do apagamento
Enquanto os mercados fecham e os parques nacionais cobram ingresso no Juneteenth, a história de Opal Lee e os ecos da emancipação adiada atravessam o Atlântico.
Na manhã de 14 de junho, os portões dos parques nacionais americanos abriram-se gratuitamente, um presente de aniversário oferecido pelo presidente Donald Trump a si mesmo e ao país no Dia da Bandeira. Uma semana depois, nesta sexta-feira, 19 de junho, esses mesmos portões voltaram a cobrar entrada. A data é o Juneteenth, feriado federal que assinala o fim da escravatura nos Estados Unidos, e a coincidência de calendário — o aniversário do presidente e a celebração da emancipação — transformou o acesso às paisagens protegidas num gesto de exclusão simbólica. A decisão, notada com ironia pela imprensa alemã, é apenas a camada mais visível de um momento em que a memória da libertação negra enfrenta, mais uma vez, o risco de ser esvaziada.
A história do Juneteenth como feriado nacional deve muito a uma mulher que caminhou. Opal Lee, hoje nonagenária, passou décadas a percorrer os Estados Unidos a pé, de Fort Worth a Washington, para recolher assinaturas e convencer legisladores. A sua jornada, que incluiu a expulsão violenta da família de um bairro branco nos anos 1950 e uma receção na Ala Leste da Casa Branca em 2021, acaba de ganhar forma de romance gráfico. “First Freedom: The Story of Opal Lee and Juneteenth”, lançado em fevereiro pela Oni Press, reconstrói com paixão e clareza, segundo os seus editores, a biografia de uma mulher cuja persistência ajudou a inscrever no calendário oficial a data em que, a 19 de junho de 1865, as tropas da União chegaram a Galveston, Texas, e informaram os últimos escravizados de que estavam livres — dois anos e meio depois da Proclamação de Emancipação de Lincoln.
O feriado, oficializado por Joe Biden em 2021, é hoje marcado por paradas, festivais de rua, concertos e os tradicionais alimentos vermelhos — costelas grelhadas, melancia, bolo de veludo carmesim — que simbolizam o sangue e o sacrifício dos antepassados. As bolsas de Nova Iorque e Nasdaq suspendem as operações, os correios fecham e as principais cadeias de retalho permanecem abertas, num mosaico de funcionamento que reflete a juventude da data no panteão cívico. Para observadores no Brasil, onde o Valor Econômico regista o esvaziamento da agenda de divulgações devido ao feriado americano, o Juneteenth ecoa de forma particular: a luta por reparação histórica e o debate sobre o legado da escravatura atravessam também o Atlântico, ainda que o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, não paralise os mercados.
Este ano, porém, a celebração é atravessada por uma corrente de fadiga e contestação. A administração Trump multiplicou gestos que, na leitura de analistas em Washington, procuram apagar a substância do dia: do ataque a programas de diversidade à recusa em alinhar com a recente resolução da ONU que classificou o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade. Ao mesmo tempo, o Supremo Tribunal desferiu um golpe na Lei dos Direitos de Voto de 1965, e a proposta de uma comissão para estudar reparações, a H.R. 40, continua paralisada no Congresso. “O trabalho não está terminado”, escreveu o reverendo Al Sharpton na manhã desta sexta-feira, lembrando que a liberdade anunciada em Galveston foi uma verdade deliberadamente retida. A fatia de bolo vermelho que se partilha nos quintais carrega assim um duplo sabor: o da festa e o da consciência de que a emancipação, como a história de Opal Lee, ainda se percorre a pé.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O Juneteenth, feriado de libertação celebrado pelos afro-americanos há mais de um século, tornou-se feriado federal apenas em 2021. Contudo, seu significado está agora ameaçado pelos ataques da administração Trump, que tentam diminuir a história negra e bloquear as reparações, transformando um dia de emancipação em uma nova frente de batalha cultural.
Enquanto os americanos se perguntam se o Juneteenth continuará a ser celebrado, Trump tenta colocar de lado este dia de memória da escravidão. Com sua alegação de ter tornado o feriado 'muito famoso', o ex-presidente procura ofuscar uma comemoração que existia muito antes de sua atenção, levantando ceticismo sobre qualquer compromisso real com a emancipação.
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