
Interferências externas e sombra de grupos armados marcam segundo turno na Colômbia
Apoios de Trump e Milei a Abelardo de la Espriella acirram disputa com Iván Cepeda, enquanto Petro denuncia ingerência e relatório revela mesas de votação sob influência de grupos criminosos.
A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais colombianas, marcado para 21 de junho, a disputa entre o direitista Abelardo de la Espriella e o esquerdista Iván Cepeda ganhou contornos de tensão internacional. O presidente argentino Javier Milei e o norte-americano Donald Trump manifestaram apoio explícito a De la Espriella, com Trump a pedir o voto no "Tigre" e Milei a divulgar uma conversa telefónica em que alinharam propostas de "mais liberdade económica" e "tolerância zero com o crime organizado transnacional". Em reação, o presidente Gustavo Petro acusou Milei de tentar "destruir o progressismo" na Colômbia, associando-o a supostos financiamentos ilícitos e ao primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu. Na perspetiva de Brasília, a ingerência de Washington e Buenos Aires é vista como parte de uma ofensiva para realinhar a América do Sul com a agenda da Casa Branca, num momento em que o equilíbrio de forças na região está em jogo.
Para além da batalha retórica, o processo eleitoral enfrenta questionamentos sobre a sua integridade. Um relatório apresentado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos identificou 218 mesas de votação, na primeira volta, situadas em zonas de alta influência de grupos armados, onde a totalidade dos votos foi para Cepeda. A Federação Internacional pelos Direitos Humanos (FIDH) emitiu um alerta de que propostas de De la Espriella em segurança e justiça — como a construção de prisões isoladas ao estilo de Nayib Bukele — podem representar riscos para o Estado social de direito. Ao mesmo tempo, o candidato a vice-presidente na chapa de De la Espriella, o ex-ministro José Manuel Restrepo, traçou um panorama económico sombrio, afirmando que o país enfrenta um "severo processo de desaceleração" herdado do governo Petro.
Apesar das controvérsias, as sondagens indicam um cenário de final aberto. De la Espriella obteve 43,7% dos votos no primeiro turno, contra 40,9% de Cepeda, uma diferença inferior a 700 mil sufrágios. A participação em Bogotá, que historicamente funciona como termómetro, atingiu quase 68% e projeta-se um novo recorde, sinal de que o eleitorado está mobilizado. Entre líderes de opinião colombianos, 10 dos 24 colunistas consultados declaram voto em Cepeda, cinco em De la Espriella e quatro em branco, refletindo a polarização que esgota o país, como descreveu uma ex-candidata que apelou ao "voto da decência" contra os discursos de ódio.
A dimensão externa continua a pesar. Onze congressistas democratas dos Estados Unidos enviaram uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio manifestando preocupação com a ingerência da Casa Branca e apontando que De la Espriella tem antecedentes que poderiam "contravir os interesses e as leis" americanas. Em Buenos Aires, analistas notam que Milei procura projetar-se como líder regional de uma "força da liberdade", enquanto em Washington a administração Trump vê na Colômbia uma oportunidade de consolidar um eixo de direita na América Latina. Para observadores em Lisboa, o desfecho colombiano servirá de teste à resiliência das instituições democráticas sul-americanas sob pressões externas e internas. Independentemente do vencedor, o próximo presidente herdará um país profundamente dividido e uma economia em crise, e a forma como lidará com a influência de grupos armados e com parceiros internacionais tão díspares definirá o rumo da Colômbia nos próximos quatro anos.
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