
Em Jeddah, Bogotá e Abu Dhabi, a música ao vivo redesenha a tradição
Assala, a Filarmónica de Bogotá e a Orquestra Nacional dos Emirados mostram como espetáculos presenciais criam laços entre artistas e públicos, da pop árabe à fusão orquestral.
Foi com uma gargalhada que a cantora síria Assala quebrou o protocolo do palco, em Jeddah, na Arábia Saudita. Depois de abrir a noite com o tema “Shukran”, confessou ao público que cantava um mawal pela primeira vez e que, para sua surpresa, não se sentia “sultaneh” — expressão do árabe coloquial que descreve o domínio técnico e emocional sobre a canção. O comentário, recebido com risos cúmplices, resumiu o espírito de uma atuação em que a artista, conhecida pela voz poderosa, preferiu a partilha íntima ao estrelato. Vestida com um modelo verde-água do libanês Nicolas Jebran, Assala transformou a arena num salão de memórias afetivas, enquanto vozes de várias gerações respondiam a cada verso de clássicos como “Yaretak Fahemni” e “Asameek el Keteera”.
Ecoando essa lógica de proximidade, a mais de 12 mil quilómetros dali, o maestro chileno Paolo Bortolameolli iniciava uma residência de três temporadas como Artistic Partner da Filarmed, a Orquestra Filarmónica de Medellín, na Colômbia. Em entrevista, sublinhou que o desafio das orquestras contemporâneas não é apenas a excelência artística, mas “manterem-se relevantes dentro da cultura e das comunidades”. Para o diretor, que em junho também regeu a Filarmónica de Bogotá num concerto gratuito no Auditório León de Greiff, a música sinfónica sobrevive porque “toca uma fibra profundamente humana”, criando uma comunhão que a tecnologia não substitui. A aposta em repertórios menos óbvios — com obras de Debussy, Bernstein e Jean Françaix — e a presença de solistas locais, como o flautista Cristian Guerrero, refletem uma tentativa de derrubar as barreiras entre o palco e a plateia.
A mesma pulsão criativa move a Orquestra Nacional dos Emirados Árabes Unidos. Na véspera do Dia Mundial da Música, o conjunto sobe ao palco do Centro Cultural de Abu Dhabi para apresentar “Sheherazade”, uma releitura da suíte de Rimsky-Korsakov encomendada ao compositor Kamal Ahmed Mustafa. O maestro Ahmed Faraj explicou que a obra não se limita a citar as “Mil e Uma Noites”, mas procura fundir a narrativa oriental com as cores da orquestra árabe, num exercício que é também um manifesto de identidade cultural. Durante os ensaios, os músicos foram convidados a mergulhar nos estados dramáticos das personagens, para que o som traduzisse não apenas notas, mas a própria textura da imaginação. É, na essência, o mesmo gesto que Felipe Hirsch leva ao palco do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, com “Orkhestra Phántasma”: uma investigação sobre como os ruídos e as melodias da memória — no seu caso, as visitas à casa vazia da mãe, que vive com Alzheimer — constroem a ilusão de uma liberdade interior.
O público respondeu a estas propostas com uma intensidade que desmente os diagnósticos de apatia cultural. Em Jeddah, os fãs apelidaram Assala de “Cinderela de Jeddah”, e as imagens da sua dança espontânea no encerramento inundaram as redes sociais. Em Bogotá, a fila para o concerto gratuito da Filarmónica era um retrato da diversidade da cidade, desde estudantes a famílias inteiras. Já em Abu Dhabi, a expectativa em torno da nova “Sheherazade” reflete uma procura por espetáculos que falem de pertença sem nostalgia passiva. Diferentes latitudes, idêntica necessidade de encontros que transformem o efémero numa forma de permanência.
Quando a orquestra emudeceu em Jeddah e Assala ficou sozinha sob os holofotes, ficou suspensa a imagem de uma artista que, ao aceitar a própria vulnerabilidade, conseguira o mais difícil: fazer de um pavilhão de milhares uma sala íntima. A milhares de quilómetros, em Abu Dhabi, o arco de um violino árabe reescrevia a história de Xerazade para um mundo que ainda precisa de ouvir e ser ouvido.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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The singer Asala delivered a massive concert in Jeddah, sharing a heartfelt message to her Saudi audience, expressing her deep affection for the city. The performance was met with thunderous applause and audience participation, as she performed a medley of her greatest hits. The event was framed as a celebration of the emotional bond between the artist and her fans.
Paolo Bortolameolli starts a new role as Artistic Partner of Filarmed, aiming to strengthen the connection between symphonic music and the community. The play 'Orkhestra Phántasma' by Felipe Hirsch explores philosophical and political themes, using music as a central element. The framing emphasizes the transformative power of art and the importance of keeping classical music alive in contemporary society.
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