
Haiti sob violência extrema e ONU inicia corrida à sucessão de Guterres
Enquanto gangues já mataram 2.300 pessoas este ano e Guterres visita Porto Príncipe, seis candidatos disputam a liderança de uma organização em crise de credibilidade.
A violência das gangues no Haiti atingiu um novo patamar trágico em 2025, com pelo menos 2.300 mortos, 1.100 feridos e 99 sequestros desde janeiro, segundo o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk. Perante o Conselho de Direitos Humanos, em Genebra, Turk instou as autoridades haitianas a criarem rapidamente estruturas judiciais que combatam a impunidade. A dimensão da crise levou o secretário-geral António Guterres a deslocar-se esta semana a Porto Príncipe, naquela que é a sua primeira visita de solidariedade ao país desde 2023, para testemunhar o sofrimento de homens, mulheres e crianças e avaliar os desafios humanitários e de segurança.
A nação mais pobre das Américas enfrenta uma tempestade perfeita de crises económicas, políticas e de segurança, agravada nos últimos anos por homicídios, violações, raptos e recrutamento de menores. Cerca de 1,5 milhões de pessoas — de uma população total de 11 milhões — estão deslocadas internamente, enquanto mais de cinco milhões padecem de insegurança alimentar aguda. Em setembro do ano passado, o Conselho de Segurança aprovou o envio de uma força multinacional para apoiar a polícia local, mas os resultados no terreno continuam aquém do necessário para conter a escalada de violência.
Enquanto a ONU tenta responder à emergência haitiana, ganha forma a disputa pela sua liderança futura. O mandato de Guterres termina a 31 de dezembro de 2026, e a Assembleia Geral já iniciou diálogos interativos com os candidatos. A equatoriana Maria Fernanda Espinosa, ex-presidente da Assembleia Geral e antiga ministra dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, apresentou a sua visão na segunda-feira, defendendo que a organização continua indispensável, mas precisa de ser reduzida de forma responsável. “Não tenho ilusões sobre as dificuldades, mas mantenho-me otimista”, afirmou, prometendo prosseguir as reformas e reconstruir a credibilidade da ONU. Entre os outros cinco nomes em circulação destacam-se o argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, e a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, que também liderou o Alto Comissariado para os Direitos Humanos.
Na perspetiva de Brasília, a tragédia haitiana reaviva a memória dos 13 anos de liderança brasileira na Missão de Estabilização da ONU (MINUSTAH), encerrada em 2017, e suscita interrogações sobre a eficácia dos novos formatos de intervenção. Observadores em Lisboa notam que a reforma da organização é tema sensível para os países lusófonos, que temem perder espaço num Conselho de Segurança ainda dominado pelas potências de 1945. Até ao momento, nenhum candidato da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa emergiu, mas diplomatas africanos de expressão portuguesa acompanham o processo com atenção, cientes de que o próximo secretário-geral herdará um Haiti em colapso e um multilateralismo fragmentado. A batalha pela sucessão promete intensificar-se nos próximos meses, exigindo consenso entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança para que a recomendação à Assembleia Geral não fracasse.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O Haiti está preso numa espiral de violência de gangues que já custou mais de 2.300 vidas desde o início do ano, segundo números da ONU. O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos soou o alarme, enquanto o Secretário-Geral Guterres viaja ao país para expressar solidariedade às vítimas desta crise sem fim.
A Assembleia Geral da ONU realizou seu quinto diálogo interativo com uma candidata ao cargo de Secretário-Geral. Maria Fernanda Espinosa, ex-presidente da AGNU e ex-ministra equatoriana, apresentou sua visão e respondeu a perguntas dos Estados-membros e da sociedade civil.
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