
Fed mantém juros, mas sinaliza alta ainda este ano na estreia de Warsh
Na primeira reunião sob Kevin Warsh, a Reserva Federal manteve as taxas inalteradas, mas nove membros preveem um aumento até ao final de 2026, num comunicado que eliminou a orientação futura.
A Reserva Federal dos Estados Unidos manteve esta quarta-feira as taxas de juro no intervalo de 3,50% a 3,75%, naquela que foi a primeira reunião de política monetária presidida por Kevin Warsh, o novo presidente nomeado por Donald Trump. A decisão, unânime pela primeira vez em um ano, era amplamente esperada pelos mercados, mas o comunicado que a acompanhou surpreendeu pela brevidade e pela eliminação de qualquer orientação futura sobre a trajetória das taxas. Com apenas 132 palavras, menos de metade do texto habitual, o documento limitou-se a constatar que a economia cresce a um ritmo sólido, apesar da incerteza elevada associada ao conflito no Médio Oriente, e que a inflação permanece acima da meta de 2%, refletindo choques de oferta decorrentes da guerra no Irão.
As novas projeções trimestrais revelaram um comité dividido, mas com um viés claramente mais conservador. Nove dos dezoito membros do FOMC preveem pelo menos uma subida das taxas até ao final de 2026, e seis antecipam múltiplos aumentos. Apenas um responsável defendeu um corte. A própria estimativa de Warsh esteve ausente do diagrama de pontos, um gesto deliberado que o novo presidente justificou como parte de uma revisão mais ampla da comunicação da instituição. A Fed reviu em alta a previsão de inflação para o final do ano, de 2,7% para 3,6%, e reduziu ligeiramente a projeção de crescimento do PIB para 2,2%. Nos mercados, a reação foi imediata: o índice Dow Jones caiu mais de 500 pontos, o S&P 500 recuou 1,5% e o dólar fortaleceu-se, enquanto o ouro recuou. Trump, que durante meses pressionara por cortes nas taxas, declarou de Paris que estava “tudo bem” com a decisão, confiando no seu escolhido.
Warsh aproveitou a conferência de imprensa para anunciar a criação de cinco grupos de trabalho que vão rever áreas críticas da atuação da Fed, incluindo a recolha e análise de dados económicos. Sublinhou que a inflação está acima da meta “há demasiado tempo e isso será corrigido”, prometendo uma “mudança de regime” na comunicação e na definição de prioridades. A eliminação da forward guidance, uma prática em vigor desde 2003, foi justificada como inadequada para o momento atual. Para analistas na Europa, a postura de Warsh representa uma rutura com a era de Jerome Powell e sinaliza um banco central mais focado no combate à inflação, mesmo que isso implique sacrificar o crescimento. Em Lisboa, observadores notam que a nova abordagem pode influenciar as expectativas para a política monetária do Banco Central Europeu, que enfrenta dilemas semelhantes.
Para as economias emergentes, a perspetiva de juros mais altos nos Estados Unidos tende a fortalecer o dólar e a pressionar as moedas locais, um cenário que analistas em São Paulo acompanham com cautela. O real brasileiro, que já vinha sofrendo com a aversão global ao risco, poderá enfrentar novas depreciações se a Fed concretizar a subida, complicando o trabalho do Copom no controlo da inflação. A incerteza geopolítica acresce uma camada de complexidade: um eventual acordo de paz entre os EUA e o Irão, previsto para os próximos dias, poderia aliviar as pressões inflacionistas, mas a sua concretização permanece frágil. A era Warsh começa, assim, com um banco central mais reservado, menos previsível e determinado a restaurar a credibilidade no seu mandato de estabilidade de preços, mesmo que isso teste a paciência dos mercados e da Casa Branca.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O dólar se mantém estável antes da primeira reunião do Fed sob Kevin Warsh, com o otimismo em torno de um acordo provisório entre EUA e Irã impulsionando o apetite por risco e reduzindo a demanda pela moeda de refúgio. Os mercados seguem cautelosos, focados nas indicações do novo presidente sobre a trajetória dos juros.
Espera-se que o Fed mantenha os juros inalterados na estreia de Warsh, mas cresce a preocupação com a inflação alimentada pela guerra no Irã e com a pressão política de Trump. Os mercados latino-americanos acompanham de perto, avaliando possíveis reflexos nas políticas monetárias locais, como o Copom brasileiro, enquanto o ceticismo sobre as reformas propostas por Warsh permanece elevado.
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