
Consumo nos EUA surpreende em maio, mas nuvens no horizonte preocupam analistas
Vendas no varejo e no mercado imobiliário superaram expectativas, impulsionadas por clima ameno e restituições fiscais, embora o efeito desses estímulos comece a dissipar-se.
O consumidor americano deu sinais contraditórios de vigor em maio. As vendas no varejo subiram 0,9% em relação a abril, alcançando 763,7 mil milhões de dólares, um ritmo bem acima da previsão de 0,5% dos analistas e que reverte a desaceleração observada no mês anterior. Excluindo as vendas de automóveis, o avanço foi de 0,8%, enquanto o comércio eletrónico cresceu 1,5%. O Departamento do Comércio atribuiu parte do impulso à melhoria das condições meteorológicas e à queda nos preços da gasolina, fatores que libertaram rendimento para outras compras. Paralelamente, o mercado imobiliário também surpreendeu: o índice de vendas pendentes de moradias saltou 3,8% em maio, muito acima da estimativa de 1%, sugerindo que a procura por habitação resiste apesar das taxas de juro elevadas.
A leitura dos dados, contudo, exige cautela. Os ganhos no retalho foram inflados por generosas restituições de impostos que chegaram aos bolsos dos contribuintes em abril e maio, um colchão fiscal que, segundo economistas, já começa a esvaziar-se. Em Lisboa, observadores notam que o efeito das transferências públicas extraordinárias tende a ser efémero e que o verdadeiro estado da confiança dos consumidores se revelará nos meses de verão, quando o impulso artificial se dissipar. A resiliência do mercado de trabalho continua a ser o principal sustento do consumo, mas o abrandamento gradual do emprego e a persistência de preços elevados em serviços essenciais podem corroer o poder de compra das famílias.
Na perspetiva de Brasília, a robustez do consumo americano tem uma leitura ambivalente. Por um lado, a força da procura interna nos Estados Unidos sustenta as exportações brasileiras de manufaturados e commodities, sobretudo num momento em que a China enfrenta ventos contrários. Por outro, a resiliência do consumo pode adiar o início do ciclo de cortes de juros pela Reserva Federal, mantendo o dólar forte e as condições financeiras globais mais restritivas, o que encarece o serviço da dívida externa e reduz a liquidez para mercados emergentes, incluindo os da África lusófona.
A aparente contradição entre um consumo corrente aquecido e uma desaceleração iminente reflete-se também no mercado imobiliário. O salto de 3,8% nas vendas pendentes de moradias, que levou o índice da Associação Nacional de Corretores Imobiliários a 76,8 pontos, foi interpretado como uma corrida tardia de compradores a aceitar taxas de juro acima de 6% como o novo normal. Contudo, a oferta de imóveis continua restrita, e os preços elevados limitam a acessibilidade para a maioria das famílias. Observadores em Lisboa sublinham que este fenómeno não é exclusivo dos EUA: em vários mercados europeus, a escassez de oferta tem sustentado os preços apesar do aumento do custo do crédito, criando um ambiente de exclusão para os mais jovens.
O panorama geral sugere que a economia americana mantém um ritmo de consumo superior ao esperado, mas os ventos favoráveis estão a perder intensidade. As restituições fiscais generosas, o clima ameno e a queda pontual dos combustíveis funcionaram como aceleradores temporários. Sem eles, e com a Reserva Federal determinada a manter as taxas de juro elevadas até que a inflação ceda de forma consistente, o segundo semestre poderá trazer uma moderação mais acentuada. Para os parceiros comerciais lusófonos, o momento exige prudência: a procura externa ainda é um motor fiável, mas o custo do financiamento internacional pode tornar-se um travão mais pesado nos próximos meses.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
2 grupos editoriais · 2 idiomas
As famílias americanas mostraram resiliência em maio, com as vendas no varejo subindo 0,9% graças ao clima mais ameno e à queda nos preços da gasolina. Economistas alertam, porém, que o efeito dos generosos reembolsos de impostos está diminuindo, sinalizando que o ímpeto pode não durar.
A cobertura se desloca totalmente dos Estados Unidos para a África do Sul, onde as vendas no varejo subiram 1,3% na comparação anual em abril. O breve despacho apenas relata os números, sem qualquer comentário sobre o episódio americano.
Artigos relacionados
Canadá goleia Qatar em noite histórica manchada por fratura brutal de Koné
13 idiomas · 64 veículos
EsporteMéxico vence Coreia do Sul e torna-se primeira seleção apurada para os 16-avos do Mundial 2026
8 idiomas · 37 veículos
PolíticaVance repreende Israel e avisa que Trump é o único aliado que resta
9 idiomas · 28 veículos