
França anuncia manobras de força multinacional e licenças de produção de mísseis para a Ucrânia
Cimeira da “coligação de vontades” em Paris decidiu exercícios militares em países vizinhos da Ucrânia, aquisição de caças Rafale e criação de uma nova aliança de defesa antimíssil.
A cimeira da chamada “coligação de vontades”, reunida em Paris a 13 de julho, produziu três decisões com consequências imediatas para a arquitetura de segurança europeia: a realização, nos próximos meses, de exercícios militares multinacionais em países vizinhos da Ucrânia; a aquisição por Kiev de 16 caças Rafale e de sistemas antiaéreos SAMP/T de nova geração; e a criação de uma coligação de defesa contra mísseis balísticos que integra nove Estados europeus e a Ucrânia. O presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que as manobras, a decorrer em território de Estados fronteiriços, se destinam a “demonstrar que estamos prontos, determinados e credíveis”, sublinhando o caráter “puramente defensivo” da futura força de tranquilização, que só seria projetada após um cessar-fogo.
Na perspetiva das capitais europeias envolvidas, o pacote agora anunciado representa uma dupla aposta: acelerar a capacitação militar ucraniana e, simultaneamente, construir uma estrutura de dissuasão que possa operar mesmo sem uma presença permanente em solo ucraniano. O Reino Unido, através do primeiro-ministro Keir Starmer, anunciou a adesão ao programa de crédito de 90 mil milhões de euros da UE para ajuda militar, enquanto o chanceler alemão, Friedrich Merz, insistiu que cabe ao presidente russo, Vladimir Putin, “aproveitar a oportunidade” de negociar. A nova coligação antimíssil, que junta Alemanha, França, Itália, Espanha, Países Baixos, Dinamarca, Noruega, Suécia e Reino Unido, prevê cooperação industrial para complementar os sistemas existentes e integra o projeto ucraniano Freyja, cujo primeiro emprego operacional poderá ocorrer ainda em 2026.
Moscovo, por seu lado, reiterou a oposição ao destacamento de qualquer força europeia na Ucrânia, considerando-a parcial e condicionando qualquer discussão ao consentimento de ambas as partes. Fontes diplomáticas russas citadas pela imprensa do país recordam que a ideia de uma missão de paz europeia é discutida desde finais de 2024 e que, já em janeiro de 2025, forças especiais francesas realizaram exercícios não oficiais para cenários de intervenção. A oposição de capitais como Berlim, Roma, Varsóvia e Madrid ao envio de tropas, manifestada em rondas anteriores, parece agora matizada pela participação destes países na coligação, ainda que as manobras se limitem a território exterior à Ucrânia.
Para além do imediato reforço militar, a cimeira de Paris sinaliza uma viragem na política industrial de defesa europeia. Macron apelou ao abandono de projetos nacionais duplicados em favor da produção conjunta, num momento em que a França concede a Kiev licenças para o fabrico local de mísseis de cruzeiro SCALP, mísseis antiaéreos Aster 30 e bombas guiadas AASM. Na perspetiva de Brasília, que tem defendido uma solução negociada e mantém canais com Moscovo e Kiev, o aprofundamento da cooperação militar ocidental com a Ucrânia pode reduzir o espaço para iniciativas de mediação extraocidentais. Em Lisboa, o governo português, que não integra esta coligação restrita, acompanha os desenvolvimentos no quadro da NATO, onde a próxima cimeira deverá avaliar a articulação entre a nova arquitetura europeia e as estruturas da Aliança Atlântica.
| Imprensa russa e CEI | −0.50 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa europeia continental | +0.20 | neutral |
A Rússia denuncia a escalada ocidental e adverte que tais ações ameaçam a segurança regional.
Ao apresentar as iniciativas ocidentais como provocações e ameaças, cria-se uma narrativa de agressão externa que justifica a posição russa.
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